Autocompaixão e o papel de vítima

Há uma linha tênue entre ter pena de si mesmo e cair no papel de vítima. O que podemos fazer para evitar isso? Definir metas claras pode nos ajudar.
Autocompaixão e o papel de vítima

Última atualização: 03 Maio, 2021

Existem certas diferenças entre a autocompaixão e o papel de vítima, mas dependendo da nossa atitude, estes podem ser quase sinônimos e nos prejudicar muito.

Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa, autocompaixão é “Compaixão por si mesmo; autopiedade”, sendo a compaixão definida como: “Sentimento pesar, pena e simpatia para com o sofrimento de outrem, associado ao desejo de confortá-lo, ajudá-lo”.

Como destacam profissionais como o autor Jack Kornfield, a compaixão surge da consciência de que estamos interconectados com todas as coisas e de que isso faz parte da nossa natureza mais profunda.

Nesse sentido, a autocompaixão pode ser positiva, pois implica sermos afetuosos conosco, em vez de nos criticarmos fortemente quando não acertamos.

É por isso que os profissionais Simón e Germer, com foco na autocompaixão a partir do Mindfulness e da concepção budista, a definem como:

“Dar a nós mesmos o cuidado, o conforto e a serenidade que naturalmente brindamos para aqueles que amamos quando estão sofrendo, quando fracassam ou quando se sentem desajustados."

Então, o que há de errado nisso?

A autocompaixão e o papel de vítima

Em vez de tomar a autocompaixão como uma forma de evitarmos ser críticos demais conosco e de nos ajudar a fazer o melhor, ela pode nos levar a desempenhar o papel de vítimas.

Cair no papel de vítima pode nos levar a um comportamento irresponsável, evitando enfrentar os problemas com uma atitude passiva. Aqueles que assumem o papel de vítima podem acabar culpando os outros pelos seus problemas.

O problema ao qual a autocompaixão pode nos levar é que, ao não termos consciência da maneira como assumimos nossas dificuldades, nos posicionamos como vítimas e nos impedimos de avançar na vida.

A autocompaixão pode destruir a autoestima
A autocompaixão pode ser positiva no sentido de que nos ajuda a ser gentis conosco quando passamos por momentos difíceis. No entanto, às vezes isso nos coloca no papel de vítimas.

Por que o sentimento de autocompaixão surge?

As pessoas com excesso de autocompaixão e cujos comportamentos acabam por se vitimizar por qualquer coisa tendem a ter baixa autoestima e não sentem que têm a capacidade suficiente para resolver os problemas.

Por isso, essas pessoas vivem a maior parte do tempo sofrendo e esperando que os outros resolvam tudo para elas. Obviamente, quem assume o papel de vítima acaba se afastando do sucesso, da superação de desafios e da conquista de metas.

Aqueles que sempre têm pena de si mesmos podem acabar se tornando vítimas eternas que culpam Deus, seus vizinhos, a sorte, a vida, seu parceiro, seus colegas ou quem quer que seja pela sua situação. Se acreditarmos que somos fracos e indefesos, nunca poderemos assumir o controle total de nossas vidas.

Qual é a raiz desse sentimento?

Muitas pessoas sentem pena de si mesmas e assumem papéis de vítimas quando, desde a infância, só receberam mensagens limitantes de seus pais, como:

  • Coitadinho, ele não consegue fazer o dever de casa."
  • Pobrezinho, ele não está bem."
  • Sempre acontecem coisas ruins com ele."
  • Ele não tem culpa pelo que aconteceu”, entre outras.

É claro que as crianças ouvem esses tipos de mensagens e gradualmente as internalizam, então isso se torna parte do seu repertório durante a vida adulta.

Outro motivo pode ser o fato de a criança ver, desde muito jovem, como a sua mãe ou o seu pai se vitimiza e coloca a culpa de tudo nos outros. Então, a criança acaba imitando essa atitude.

Se uma criança também foi vítima real de alguma forma de abuso, isso pode afetar o resto da sua vida se ela não trabalhar o problema de forma consciente com uma terapia adequada.

Os pais não devem estimular a vitimização
Em muitos casos, o papel de vítima começa com comportamentos adquiridos durante a infância. Por exemplo, é comum entre crianças cujos pais se vitimizam.

O que fazer para evitar cair no papel de vítima?

  • Seja consciente. Lembre-se de que esse sentimento só o levará a se anular e limitará todas as suas capacidades e potencialidades.
  • Pare de procurar a origem. Nesse ponto, se o importante é mudar, pode não importar como tudo começou, pois você pode cair no círculo eterno de procurar culpados.
  • Evite reclamar. Veja o lado bom das coisas. Principalmente, comece observando tudo o que você tem na vida e pratique a gratidão.
  • Esqueça a pena. Pare de tentar chamar a atenção de outras pessoas e, em vez disso, reconheça qual tem sido a sua responsabilidade no assunto.
  • Comece a resolver. Pare de delegar tarefas a outras pessoas. Lembre-se de que quanto mais você deixa os outros agirem sobre as questões em que você está imerso, menor será o controle sobre a sua própria vida.
  • Aja como uma pessoa adulta. Lembre-se de que você não é mais uma criança indefesa que precisa da proteção dos pais. Portanto, aja como uma pessoa adulta, com responsabilidades.
  • Estabeleça seus objetivos. Busque-os com determinação.

Tudo que aconteceu ontem deve ficar no passado. Deixe de lado a autocompaixão e o papel de vítima eterna. Hoje é um novo dia e você pode começar a viver de uma maneira completamente diferente. Assuma o controle da sua vida e veja até onde você pode ir. Nunca é tarde!

Pode interessar a você...
Você sabia que ouvir pessoas que reclamam o dia todo esgota a sua energia?
Melhor Com SaúdeLeia em Melhor Com Saúde
Você sabia que ouvir pessoas que reclamam o dia todo esgota a sua energia?

Você sabia que ouvir pessoas que reclamam o dia todo esgota a sua energia? Não deixe que essa negatividade afete a sua vida.



  • Alonso Maynar, M., & Germer, C. K. (2016). Autocompasión en Psicoterapia y el Programa Mindful Self Compassion: ¿Hacia las Terapias de Cuarta Generación? Revista de Psicoterapia. https://doi.org/10.33898/rdp.v27i103.111
  • Aranda, G., Elcuaz, M. R., Fuertes, C., Güeto, V., Pascual, P., & Sainz de Murieta, E. (2018). Evaluación de la efectividad de un programa de mindfulness y autocompasión para reducir el estrés y prevenir el burnout en profesionales sanitarios de atención primaria. Atención Primaria. https://doi.org/10.1016/J.APRIM.2017.03.009
  • Araya, C., & Moncada, L. (2016). Auto-compasión: origen, concepto y evidencias preliminares. Revista Argentina de Clínica Psicológica, 25(1), 67-78.
  • Elices, M., Carmona, C., Pascual, J. C., Feliu-Soler, A., Martin-Blanco, A., & Soler, J. (2017). Compassion and self-compassion: Construct and measurement. Mindfulness & Compassion. https://doi.org/10.1016/j.mincom.2016.11.003
  • Gálvez Galve, J. (2012). Revisión del concepto psicológico de la autocompasión. Medicina Naturista.