Paciente zero: pesquisas durante a pandemia

22 de maio de 2020
Laboratórios do mundo todo estão unindo forças para encontrar vacinas e medicamentos eficazes contra o coronavírus. Apesar disso, uma tarefa essencial de pesquisa é a identificação do paciente zero para evitar futuros surtos.

O coronavírus (COVID-19) se espalhou de forma incontrolável pelo mundo todo, monopolizando o espaço na mídia e a atenção dos governos. Apesar disso, em meio a toda essa agitação, há um fator que pode passar despercebido: a importância do paciente zero em uma pandemia.

Todos vão se lembrar de uma informação em especial, uma informação distante, do início dessa pandemia. O foco foi um mercado de frutos do mar na cidade de Wuhan, na China. A partir daqui, as linhas de investigação ficam difusas: foram os morcegos ou o pangolim o primeiro foco da doença? Quem exatamente foi a primeira pessoa infectada?

Esses questionamentos podem parecer estranhos: por que gastar recursos na descoberta de algo que já aconteceu? A resposta é simples, mas enfática: o conhecimento do início dessa pandemia pode impedir que situações como essa aconteçam novamente.  Continue lendo se você quiser saber mais sobre o paciente zero infectado pelo novo coronavírus.

O vetor inconsciente

O paciente zero ou caso índice corresponde ao primeiro caso que desperta a atenção da investigação e origina uma série de ações, visitas e etapas necessárias para encontrar um foco da infecção. Na primeira etapa, existem três tipos de caso índice:

  • Caso primário: o primeiro que ocorre em ordem cronológica.
  • Caso coprimário: é o caso subsequente ao primário e compreendido entre o período máximo de incubação a partir de uma fonte comum.
  • Caso secundário: é o caso subsequente ao primário de modo que, devido ao período de incubação, a transmissão possa ser atribuída a partir do caso primário.

Essa terminologia pode parecer um tanto redundante ou difícil de entender, mas vamos focar em um ponto: o caso índice pode ser qualquer um dos 3. O que importa sobre o paciente zero não é tanto se ele foi o primeiro ou o segundo a ter sido infectado, e sim a possibilidade de alertar às autoridades sanitárias e dar início ao mecanismo de investigação.

Nunca vamos saber quem foi o primeiro infectado de uma doença como a COVID-19. Como em muitos casos ela é assintomática, quem der o alerta sempre será o centro das atenções.

O paciente zero em uma pandemia
Nunca se saberá com certeza quem foi a primeira pessoa infectada com a COVID-19, pois a atenção foi direcionada ao caso ou aos casos que acionaram os alarmes.

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Paciente zero: caso índice na China

Esta notícia pode ser surpreendente: o primeiro caso relatado de coronavírus parece ter ocorrido em 17 de novembro de 2019, segundo as autoridades chinesas. Acredita-se que tenha sido um morador da cidade de Wuhan, de 55 anos.

Essas evidências foram encontradas realizando testes da doença a posteriori. Isso porque, quando um paciente apresenta um quadro clínico, mas a doença ainda não foi descrita, atribui-se o quadro a outras causas.

  • No final de março deste ano, o pangolim foi admitido como uma possível fonte de infecção, e estudos recentes fundamentam ainda mais essa origem.

Uma equipe de pesquisa, por meio da revista científica Nature, publicou os resultados da análise de diferentes restos de pangolim congelados.  Os dados são reveladores, pois em 5 das 18 amostras foram encontradas duas cepas de coronavírus, com semelhança de até 90% com a cepa que atinge os seres humanos.

Isso significa que é muito provável que uma mutação do vírus do pangolim possa ter se adaptado para invadir o corpo humano. Então, se já encontramos o vetor mais provável da doença e o primeiro paciente a apresentar um quadro clínico, o que ainda está faltando?

COVID-19: quem foi o paciente zero?
Embora várias pesquisas estejam sendo desenvolvidas, as descobertas sugerem que pode ter ocorrido uma mutação do coronavírus do pangolim, que se adaptou para invadir o corpo humano.

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Conhecimento para a ação

O paciente zero não é apenas um; isso depende da área geográfica. É de vital importância conhecer a origem do foco principal, mas também do resto do mundo todo.

Na Europa, por exemplo, um alemão de 33 anos pode ter sido o primeiro paciente europeu a se contaminar, de acordo com uma publicação do New England Journal of Medicine (NEJM). Isso levanta várias questões:

  • Como o paciente contraiu a doença?
  • Quais meios de transporte ele utilizou para se deslocar no período de contágio?
  • Com quantas pessoas ele interagiu durante o período de incubação?

A busca do caso índice tem o objetivo de responder a essas e infinitas outras dúvidas.  Se conhecermos a dinâmica de uma pandemia global, a próxima não vai ser capaz de pegar as entidades governamentais de surpresa.

Por exemplo, se for descoberto que 90% dos pacientes zero de cada país contraíram a doença em uma viagem de avião, em surtos subsequentes este será o primeiro aspecto a ser controlado.

O conhecimento basal de um acontecimento é essencial para a prevenção. Por esse motivo, apesar de todas as medidas tomadas para evitar a continuidade de uma pandemia, conhecer seu início sempre será crucial.

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