Os vícios durante a quarentena

22 de maio de 2020
Os vícios durante a quarentena são um problema que não está sendo devidamente abordado. Isso porque o confinamento coloca aqueles que possuem algum vício em risco, assim como aqueles que têm tendências ao vícios.

O confinamento e o isolamento impostos pelos governos ao redor do mundo para conter o avanço da epidemia do coronavírus geraram novas situações problemáticas. Entre elas, temos aqueles que convivem com vícios durante a quarentena.

O assunto está dentro do amplo campo da saúde mental, no qual também podemos mencionar a violência doméstica e os transtornos de ansiedade, depressão e estresse. Os mesmos órgãos de saúde que recomendam o confinamento estabeleceram mecanismos para lidar com essas outras problemáticas.

Na psicologia e na psiquiatria já se sabe que as situações que nos levam ao limite e os episódios estressantes podem elevar o consumo de substâncias psicoativas, bem como trazer à tona comportamentos relacionados ao vício, como o jogo excessivo. Pois bem, os vícios durante a quarentena se encaixam nesse contexto.

Os mecanismos de defesa são mais difíceis de ser implementados durante o isolamento social. Não podemos recomendar aos pacientes que eles visitem seus familiares, que recorram a amigos de confiança, que saiam e façam uma atividade ao ar livre. Por não podermos sair, o risco de comportamentos relacionados ao vício aumenta.

O inícios de vícios durante a quarentena

Uma situação que pode ocorrer neste momento é que um processo vicioso tenha início durante a quarentena. Algumas pessoas podem se sentir impelidas a alguns comportamentos por causa do estresse do confinamento.

O consumo de álcool aumentou consideravelmente durante a pandemia. Países como os Estados Unidos registraram um aumento nas vendas de bebidas alcoólicas em mais de 50% neste período. Alguns países tiveram que decretar lei seca, com proibição de venda de álcool, sendo esta uma medida que já foi usada em situações prévias parecidas.

Também há um temor de que o vício em jogos dispare, principalmente pela sua disponibilidade online. Ao permanecer mais tempo fechado e conectado, o acesso a esse tipo de site aumenta.

O vício em jogos afeta também a economia do lar, e, nestes tempos de pandemia de COVID-19, já estamos diante de problemas econômicos que não precisam ser agravados por esse tipo de comportamento.

Homem alcoólatra
A venda de álcool durante a quarentena disparou, e este é um indicador do aumento de comportamentos viciantes.

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Síndrome de abstinência durante a quarentena

Os vícios durante a quarentena também fazem com que surja a síndrome de abstinência nas pessoas que já possuíam um vício antes do início da pandemia. O confinamento limita o abastecimento e, nos casos de recuperação, limita até mesmo o tratamento que estava sendo colocado em prática.

Para os pacientes que se encontram em processo de desabituação, ter uma rede social é fundamental. É necessário estabelecer mecanismos para que haja um contato virtual com familiares e amigos que estejam comprometidos com a reabilitação no novo contexto.

Os profissionais da saúde mental, em geral, colocam à disposição números de telefone e consultas virtuais para dar apoio a quem tem um vício. Diante de sintomas de abstinência, é necessário fazer uma consulta online imediata que ajude a parar o processo que poderia resultar em uma recaída para o vício.

Os jovens viciados são um grupo vulnerável com características próprias. Muitos vivem sozinhos e se encontram isolados, com pouco dinheiro disponível. O risco de abstinência nesse contexto pode levá-los até mesmo a cometer delitos em um duplo sentido: o delito em si e a transgressão da quarentena obrigatória.

Homem que teve overdose de medicamentos
Os vícios aumentam durante o confinamento por causa da situação estressante que ele envolve.

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Recomendações gerais para lidar com vícios durante a quarentena

Cada caso é único e precisa de uma abordagem direcionada. É muito difícil fornecer linhas gerais para problemas tão diversos como o vício em jogo, em pornografia e em álcool, por exemplo.

No entanto, pelas experiências acumuladas na área de saúde mental, sabemos que há ambientes que agem como proteção. Podemos manipular esses ambientes e oferecer uma ajuda para os viciados, estejam eles no período de reabilitação ou não. Algumas das medidas essenciais são:

  • Manter uma rede de apoio: familiares, amigos e vizinhos funcionam como um suporte para quem tem um vício. Representam as conexões com outros seres humanos, baseadas na empatia.
  • Encontrar uma forma de conversar: a tecnologia é uma grande aliada durante o confinamento. É possível continuar fazendo sessões de psicoterapia à distância, assim como fazer videoconferências com a rede de apoio nos momentos difíceis. O viciado deve encontrar o espaço para falar e expressar seus medos.
  • Assegurar informações verídicas: o viciado deve se informar apenas por meio de fontes confiáveis sobre a pandemia e sobre como ela se relaciona com o seu vício. A superexposição à informação será contraproducente e pode gerar um estresse desnecessário.

Os vícios durante a quarentena são um problema social

Prevenir e abordar os vícios durante a quarentena é uma responsabilidade dos governos, mas também da sociedade como um todo. Não é só uma pessoa que luta sozinha contra um problema durante a quarentena, mas sim uma rede bem maior, comprometida com a sociedade de uma forma geral e com o apoio mútuo necessário em épocas difíceis.

Se sabemos de alguém que está tendo sintomas de dependência de alguma substância ou ação, ou também sintomas de abstinência, devemos agir para que ela receba a ajuda adequada. Tanto a família quanto os amigos e os profissionais podem conseguir formar um ambiente protetor para ajudar quem tem um vício.

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