Confabulação: saiba tudo sobre este erro da memória

A confabulação é considerada difícil de tratar. É possível melhorar a qualidade de vida desses pacientes? Vamos ver em que consiste esse fenômeno e como enfrentá-lo.
Confabulação: saiba tudo sobre este erro da memória

Última atualização: 11 Maio, 2021

Dentro da gama de processos cognitivos que o ser humano possui, a memória é um dos mais estudados. Mesmo assim, ainda é uma questão complexa. Para entender o que é confabulação, é importante saber que ela se origina pela distorção de algumas memórias.

Nossas lembranças não são reproduções exatas de eventos. Todos podem se lembrar de um evento de forma diferente e garantir que foi assim que aconteceu. Trata-se de uma deformação da realidade devido à perda de informações.

Um exemplo claro ocorre em idosos que têm um distúrbio neurocognitivo importante (demência senil). Eles garantem que viveram algo de uma maneira completamente diferente dos eventos reais.

Tipos e classificação

A confabulação é um fenômeno cognitivo difícil de tipificar, visto que pode assumir várias formas. No entanto, existem 5 critérios para classificar essas alterações cognitivas. Vejamos a seguir quais são.

1. Confabulação espontânea

Esse primeiro tipo de confabulação é a que dura menos. São ideias fantasiosas que são afirmadas como acontecimentos reais pela pessoa, de forma contundente. Geralmente ocorre em pacientes com síndrome de Korsakoff.

2. Confabulação provocada

Nesse caso, o que acontece é que a memória não consegue evocar algo com precisão. É comum em pacientes com amnésia. Algo semelhante acontece quando uma pessoa saudável tenta reter algumas informações de forma forçada por longos períodos de tempo.

Por exemplo, estudar para uma prova pode literalmente causar falhas na memória. No momento da avaliação, alguns conceitos podem ser trocados e afirmados como verdadeiros, mesmo que não correspondam à realidade.

Perda de memória
Em uma idade mais avançada, aumenta o risco de sofrer de demência senil, que está associada à evocação de lembranças que não aconteceram daquela forma.

3. Intrusões desencadeadas simples

Essas distorções aparecem quando uma pessoa é forçada a evocar informações em detalhes. Vamos imaginar por um momento que esquecemos a lista de compras e tentamos nos lembrar do que ela dizia. Inconscientemente, poderíamos comprar algo que não estava listado, mas que lembramos dessa forma.

4. Confabulação momentânea

Este tipo de falha de memória é a mais comum nas confabulações. Trata-se de um relato fantástico que parece ser perfeitamente verossímil.

No entanto, é fácil identificá-lo. Ocorre, por exemplo, quando um paciente conta seus planos em detalhes, mas é evidente que eles são impossíveis de realizar. É comum em casas de repouso, quando alguns idosos dizem que visitarão seus amigos de infância ou adolescência, mesmo que já tenham falecido.

5. Confabulação fantástica

Esse tipo de confabulação é a mais intensa devido ao alto distanciamento da realidade que apresenta. Como o nome sugere, são histórias fantásticas que só têm credibilidade para o paciente. Esses distúrbios da realidade são comuns em pacientes com demência psicótica e paralítica.

Outra classificação

Esta classificação dos 5 tipos que vimos é proposta por Kopelman e é a mais precisa para determinar a intensidade e frequência das confabulações. Outro método que vem sendo utilizado ao longo dos anos é o proposto por Schnider, que consiste em 4 critérios:

  • Conteúdo: estabelecer a confiabilidade da história de acordo com limites que vão do verdadeiro ao falso.
  • Maneira como aparecem: espontâneas ou provocadas.
  • Áreas em que se manifesta: episódica, autobiográfica, semântica geral ou semântica pessoal.
  • Síndrome clínica em que ocorrem.

Quais sintomas estão relacionados à confabulação?

Os sintomas das confabulações variam dependendo do distúrbio subjacente que as esteja ocasionando. Por exemplo, nos pacientes com Alzheimer, os sinais mais característicos são déficit cognitivo, declínio mental e problemas de memória.

Vamos ver outros sintomas que podem aparecer de acordo com o distúrbio neurológico:

  • Demência: comprometimento da memória com nervosismo.
  • Esquizofrenia: distúrbio do pensamento, alucinações acústicas, paranoia.
  • Síndrome de Korsakoff: perda recente de memória, mania e comportamentos repetitivos.
  • Asomatognosia: incapacidade de integrar as partes do próprio corpo ou reconhecê-las, falsas sensações associadas à perda de um membro.

Possíveis causas de confabulação

As causas das falhas de memória causadas por confabulações em pacientes são o produto de danos à área frontal do cérebro. Em particular, a área afetada é a anterior basal, onde se encontram as áreas orbitofrontal e ventromedial.

Existem três teorias que tentam explicar as razões pelas quais ocorrem as confabulações. A seguir, detalhamos quais são. É importante saber que essas hipóteses vêm de uma perspectiva neuropsicológica.

1. Disfunção de memória

Esta teoria afirma que a confabulação é uma forma de amnésia. O postulado principal sustenta que as falhas de memória são uma forma de dar sentido a memórias incompletas que podem ser recuperadas pelos pacientes. Essa hipótese conta com uma grande aprovação.

2. Disfunção executiva

A teoria da disfunção executiva afirma que quando existem graves limitações mentais em termos de planejamento e estabelecimento de metas específicas, ocorrem falhas de memória que dão origem a confabulações.

3. Hipótese dupla

Nessa hipótese, a abordagem não descarta nenhum dos postulados anteriores e sustenta que as confabulações se devem a um déficit nos processos executivos (funções superiores da consciência), além de falhas de memória.

Como podemos tratar este problema?

Exames de imagem do cérebro
As lesões cerebrais podem levar à confabulação como complicação associada a médio prazo.

Apesar de as confabulações serem consideradas sequelas não tratáveis, existe uma abordagem capaz de melhorar a qualidade de vida dos pacientes que confabulam após terem sofrido um traumatismo cranioencefálico. É um procedimento neuropsicológico que se baseia no confronto como meio de estimulação cognitiva.

Este tratamento foi desenhado por pesquisadores da Universidade de Granada. Consiste em mostrar ao paciente uma série de imagens em sequência que podem variar em conteúdo; então, eles são solicitados a lembrar o que viram. No momento da lembrança, ocorre a confabulação, e é aí que os especialistas interpelam.

Eles indicam aos pacientes que a lembrança que julgam verdadeira é falsa, e as imagens são mostradas a eles novamente, ao mesmo tempo em que a falha da sua memória é explicada. Em neuropsicologia, esse processo é chamado de feedback. Após 9 sessões, é possível esperar uma melhora.

O que fazer se conhecermos alguém que confabula?

Se você conhece uma pessoa que pode estar apresentando algum tipo de confabulação, a melhor coisa a fazer é não insistir abruptamente que ela está errada. Lembremos que, para esses pacientes, eles estão falando de um acontecimento real. Devemos mostrar empatia e evitar gerar estresse.

O próximo passo é consultar um especialista que possa avaliá-lo e determinar a intensidade do dano para estabelecer o caminho a seguir. Alguns pacientes param de confabular depois de um tempo e não precisam ser hospitalizados.

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