Abulia: sintomas e tratamentos

A abulia se caracteriza por sentimentos e frases que denotam uma desmotivação. O paciente não tem vontade de fazer nada e isso pode ser um sinal incipiente de depressão.
Abulia: sintomas e tratamentos

Última atualização: 25 Junho, 2021

“Não tenho forças para nada”, “Não me interessa”, “Tento, mas não consigo”. Essas são as frases mais frequentes ditas pelos pacientes durante as consultas. Isso é o que se conhece como abulia.

A abulia assume a forma de uma extrema apatia e se manifesta na falta de interesse, vontade e energia para realizar qualquer atividade. Pode ser algo simples ou algo mais complexo, dependendo do caso particular.

Sintomas associados à abulia

Alguns dos sintomas que permitem perceber a presença da abulia são os seguintes:

  • Falta de motivação e interesse em realizar qualquer tipo de atividade, tanto as que eram prazerosas quanto as mais rotineiras, como o trabalho ou as atividades acadêmicas.
  • Perda da capacidade de sentir prazer.
  • Reconhecimento de que certas atividades devem ser realizadas ou de que certas coisas devem ser iniciadas, mas elas nunca são concretizadas. A abulia leva à procrastinação.
  • A perda de interesse também se manifesta nas relações. Assim, há dificuldades em nível comunicativo (não há interação, responde-se de forma monossilábica, não se inicia nem se continua um diálogo). Da mesma forma, o interesse sexual diminui ou se perde.
  • Também pode haver negligência ou abandono da higiene pessoal.
  • Embotamento afetivo: por esse motivo, pode haver indiferença ou dificuldade para dar uma resposta adequada às situações vividas.
  • Lentidão nos movimentos ou inibição motora.

A presença dos sintomas não é um problema em si, já que muitas vezes nas nossas vidas podemos sentir dificuldade para iniciar uma ação ou para nos sentirmos motivados. O problema está na sua persistência ao longo do tempo.

Por outro lado, é importante saber que a abulia faz parte dos transtornos do humor, tais como a distimia e a depressão.

Abulia: sintomas e tratamentos

Qual é a sua causa?

Quanto às causas, assim como acontece com quase todas as situações ou problemas na psicologia, não existe uma origem única. Pelo contrário, isso também depende do transtorno ao qual nos referimos.

Em certos casos, falamos de alterações neuroendócrinas (devido a uma maior produção de cortisol). Em nível neurológico, há achados relacionados a problemas estruturais ou funcionais de diferentes áreas do cérebro, como as lesões nos gânglios da base.

Nos transtornos do humor, como a depressão, sabe-se que ocorrem alterações nos neurotransmissores serotonina, noradrenalina e dopamina. Portanto, uma opção é trabalhar o sintoma em nível farmacológico com antidepressivos.

Mas o problema também pode surgir juntamente com fatores psicológicos ou psicossociais, quando a presença prolongada e intensa de situações estressantes ou de experiências traumáticas costuma ser comum.

Como a abulia é diagnosticada?

A partir do reconhecimento da complexidade do fenômeno e da sua possível multicausalidade, o diagnóstico deve ser abrangente, investigando em nível neurobiológico e psicológico.

É importante atentar para os aspectos individuais, reconstruindo a história de vida do paciente e os possíveis eventos adversos que possam estar atuando. Também é preciso reconhecer se há ou não fatores sociais que possam ter desencadeado a abulia ou que possam reforçá-la.

Para a elaboração do diagnóstico, as entrevistas com o paciente são de extrema importância, mas os relatos dos familiares também pode ser esclarecedores. Ao contar com o máximo possível de informação, o plano terapêutico pode ser mais bem elaborado.

Tratamentos disponíveis

O tratamento depende muito do diagnóstico obtido. Conforme mencionado, a abulia faz parte de diferentes transtornos. Em geral, pode ser feita uma combinação de psicoterapia e farmacologia, se necessário.

Quanto ao tipo de terapia, embora haja múltiplas abordagens, a cognitiva é uma das mais utilizadas, pois ela atua na reestruturação das crenças e pensamentos que o paciente pode ter sobre si mesmo e sobre o seu estado atual. Da mesma forma, a ativação comportamental também faz parte das intervenções utilizadas.

Por outro lado, a psicoeducação também é muito importante, tanto para facilitar a compreensão do problema quanto para fazer com que o paciente se torne o protagonista da sua mudança. Isso permite que ele tome medidas de autocuidado e melhore a sua qualidade de vida progressivamente.

Dicas para que a abulia não controle a sua vida

Uma das maiores dificuldades da abulia tem a ver com o círculo vicioso que se estabelece. Por exemplo, conforme a pessoa vai perdendo o interesse nas relações, isso vai causando um desânimo, que reforça ainda mais a abulia. É importante realizar pequenas ações para quebrar essa espiral.

O ato de pedir ajuda já é um desafio para os afetados pela abulia. Em geral, a própria apatia em que se encontram, a baixa autoestima e a inibição emocional funcionam como obstáculos.

1. Comemorar as pequenas conquistas

Para as pessoas com abulia, qualquer coisa, por menor que possa parecer, é uma missão difícil. É por isso que é preciso tentar envolvê-las em atividades pequenas e realistas, de forma gradual.

Podemos pedir que a pessoa faça uma caminhada de 30 minutos durante o dia. Se ela conseguir, essa conquista deve ser valorizada e comemorada, motivando e apoiando para que continue na mesma direção.

Abulia: sintomas e tratamentos
Apoiar o paciente com abulia é fundamental. Comemorar as suas conquistas e acompanhá-lo em atividades específicas são formas de incentivá-lo.

2. Introduzir novos hábitos

Também é muito importante focar nos bons hábitos, como, por exemplo, uma alimentação balanceada, um pouco de atividade física e uma boa higiene do sono. A psicoterapia geralmente trabalha por meio da programação de atividades diárias como uma das técnicas de intervenção possíveis, permitindo ao paciente receber alguns reforços cada vez que consegue realizá-las.

3. Incentivar (e acompanhar) a realização das atividades

As pessoas com abulia não querem participar de nenhuma atividade, pois perderam a motivação. No entanto, aqueles ao seu redor devem incentivá-las a aceitar as propostas, mesmo que não tenham vontade. Assim, será mais fácil regularizar a situação e recuperar o interesse.

A família e as pessoas queridas podem acompanhar, proporcionando suporte emocional, estimulando a socialização, incentivando as pessoas a falar e a expressar as suas emoções e sentimentos. 

Como parte da recuperação, os planos que são elaborados geralmente incluem não apenas o terapeuta e o paciente, mas também o sistema familiar.

A abulia não se resolve do dia para a noite

Trabalhar com a abulia exige que tenhamos paciênciaOs passos são pequenos, mas começar a se mover é uma grande conquista.

É fundamental ser realista nos objetivos e no tratamento proposto para que não haja frustração. Porém, é igualmente importante ter um ambiente de apoio que acompanhe a pessoa no caminho para se sentir melhor, já que o isolamento piora o quadro.

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