Estudo confirma que há três tipos de coronavírus no mundo

22 de maio de 2020
Estudos científicos sobre as cepas do SARS-CoV-2 mostram a existência de três tipos de coronavírus durante esta pandemia. As mutações significam alterações genéticas que são próprias de um vírus com estas características.

A existência de pelo menos três tipos de coronavírus não é uma grande novidade para o campo científico, mas propõe um avanço no estudo do genoma do vírus. Através dessa confirmação, é possível planejar intervenções de contingência para o futuro e para novas pandemias.

Cada vez que os contágios pelo COVID-19 chegam a um país, os testes genômicos começam a ser feitos para decifrar o genoma do vírus que está circulando no território.

Desse modo, as autoridades da área da saúde podem confirmar que estão diante da mesma cepa de vírus que o resto do mundo e, ao mesmo tempo, rastrear possíveis mudanças nas partículas virais. Essas mudanças são compartilhadas dentro da comunidade científica para dar seguimento às pesquisas e entender o surto.

Alguns estudos prévios já haviam identificado a existência de duas variedades do SARS-CoV-2, denominadas S e L. A variante L era um pouco mais agressiva com os pacientes e era responsável por um contágio mais rápido.

Agora, um estudo da Universidade de Cambridge que foi publicado no dia 30 de março descobriu que os genomas analisados na verdade se referiam a três tipos diferentes de coronavírus da mesma cepa SARS-CoV-2. Os tipos foram chamados de A, B e C.

O coronavírus e suas mutações

O coronavírus do atual surto mundial é um vírus RNA, o que quer dizer que sua informação genética está contida em um ácido ribonucleico. Todos os vírus RNA sofrem mutações porque têm dificuldades para controlar sua replicação.

Uma vez que o coronavírus adentra uma célula, busca os mecanismos internos da mesma para se multiplicar. Lembremos que os vírus requerem um hospedeiro para poder se replicar, pois não contam com as estruturas básicas para fazê-lo sozinhos.

A questão com os vírus RNA, como o SARS-CoV-2, é que eles não possuem um método de controle eficiente para o ácido ribonucleico novo que criam na célula hospedeira. Cada vez que se replicam, esses vírus correm um alto risco de sofrer uma mudança.

O mesmo acontece com o vírus influenza, que também é do tipo RNA. Por isso, a cada ano uma nova vacina antigripal é feita com base nas novas cepas que se originaram a partir de mutações sofridas durante a última temporada de gripe. Assim, enfrentamos uma nova gripe a cada estação invernal.

Vírus do coronavírus
O coronavírus é um vírus RNA, e por isso é esperado que ele sofra mudanças frequentes.

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Os três tipos de coronavírus

O estudo ao qual estamos nos referindo disse ter identificado três tipos de coronavírus no mundo, segundo os genomas que foram sequenciados. Esses três tipos são vinculados a três grande grupos de contágio durante a pandemia.

Os pesquisadores usaram letras diferentes para nomear cada tipo: A, B e C. Cada letra se relaciona a um cluster de contágio, ou seja, um grupo de infectados em cadeia nos quais é possível identificar a mesma carga genética do vírus. Isso permite o monitoramento do tipo particular de vírus através dos países que ele foi infectando durante sua dispersão.

O chamado tipo A é o mais similar ao coronavírus que começou seu caminho nos morcegos e pangolins da China. Seria o tipo de infectou os primeiros pacientes na idade chinesa de Wuhan em novembro ou dezembro de 2019. No entanto, neste momento este não é o tipo predominante na China.

Por outro lado, temos o tipo B. Este sim é o mais prevalente na China no momento, e também na Ásia oriental. Essa cepa convive nessas zonas com o tipo C, mas ainda assim é majoritário.

Finalmente, o tipo C é a forma que predomina na Europa. Essa variedade foi facilmente rastreada no surto ocorrido na Itália e também no Reino Unido. Supõe-se que seja uma mutação ocorrida a partir do tipo B.

Pandemia de coronavírus
Cada tipo de coronavírus tem regiões geográficas onde se espalhou mais facilmente.

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Qual é a utilidade de saber que existem três tipos de coronavírus?

Todos os genomas que foram identificados nesta pandemia foram compartilhados entre os países para facilitar as pesquisas sobre o surto. Dessa forma, cada laboratório que decifra uma sequência genética do SARS-CoV-2 em seu país o coloca em uma mesma base de dados compartilhada.

Essa informação é valiosa para as pesquisas que estão sendo realizadas durante a pandemia, e será também no futuro, como acredita uma equipe de pesquisa de Cambridge. Seu melhor prognóstico é de que o conhecimento sobre os genomas dos coronavírus pode ajudar a melhorar a resposta mundial diante de novas pandemias.

A identificação dos três tipos de coronavírus também é útil para avaliar medicamentos e vacinas. A criação de determinados componentes para combater o COVID-19 requer os códigos de RNA para fabricar substâncias que interajam com o vírus.

Três tipos de coronavírus, mas uma só pandemia

Ainda que pareça que há três formas diferentes do vírus, é importante lembrar que estamos falando da mesma cepa. Trata-se do SARS-CoV-2 que, ainda que sofra mutações por sua própria natureza, ainda é o que partiu de Wuhan e se espalhou por todo o planeta. As medidas de prevenção continuam sendo as mesmas, ainda que os dados sigam sendo atualizados com notícias e pesquisas.

  • Forster, Peter, et al. “Phylogenetic network analysis of SARS-CoV-2 genomes.” Proceedings of the National Academy of Sciences (2020).
  • Tang, Xiaolu, et al. “On the origin and continuing evolution of SARS-CoV-2.” National Science Review (2020).
  • Ena, J., and R. P. Wenzel. “Un nuevo coronavirus emerge.” Revista Clinica Espanola 220.2 (2020): 115.
  • Chen, Yu, Qianyun Liu, and Deyin Guo. “Emerging coronaviruses: genome structure, replication, and pathogenesis.” Journal of medical virology 92.4 (2020): 418-423.