A encruzilhada física e emocional da menopausa

· 3 de junho de 2018
Devemos aprender a aceitar as mudanças e a experiência do envelhecimento e aproveitar para conhecermos e curarmos possíveis feridas que a passagem do tempo vai deixando

Muitas mulheres a chamam de “o fim de sua menstruação”, de “mudança de vida” ou simplesmente “a mudança”. Isso é assim porque nos anos que rodeiam a menopausa ocorrem variações graduais em função do ovário e em função corporal, que chegam a durar entre seis e treze anos.

Seja como for, nenhuma outra fase da vida oferece à mulher tantas oportunidades de abrir passagem a si mesma em meio à negatividade cultural que rodeia este fato.

Contudo, as coisas já não são como antes, visto que o aumento da expectativa de vida fez com que a menopausa coincidisse com a primavera da vida ou o início de um segundo período vital.

Ainda assim, é inevitável o fato de que a mulher experimente uma encruzilhada física e emocional que ela precisa resolver sozinha, apesar do sofrimento que implica.

A menopausa em nossa cultura

Mulher na menopausa com borbolestas na cabeça

Até pouco tempo a atitude médica considerava a menopausa como uma doença, e não como o processo natural que verdadeiramente é. Ou seja, ao invés de trata-la como um aspecto evolutivo, o faziam em termos de insuficiência de estrogênios.

Assim, visto que a mulher na menopausa não usava sua energia para ter filhos, considerava-se seu organismo em “decadência funcional”, e tanto para a sociedade quanto para a comunidade científica os peitos e os órgãos sexuais femininos se atrofiavam e se tornavam “velhos”.

Como consequência, durante muitos anos as mulheres se cansaram de conselhos e conversas que pretendiam “consertar” esta experiência, fazendo-as acreditar que este processo ocorria em detrimento de sua própria existência.

O medo de envelhecer: um sintoma dos preconceitos sociais

Vivemos em uma sociedade que prejudica a velhice de tal forma que, simplesmente, a encara como o desmoronamento e o desgaste do corpo. Ou seja, o que se considera normal é a depressão, o cansaço e a incontinência; portanto, aquele que chegue à velhice sem cumprir essas condições é considerado excepcional.

Neste sentido, fica claro que a experiência de envelhecimento tal e como a conhecemos está fortemente determinada por nossas crenças.

Contudo, mulheres que nasceram nos anos cinquenta já conseguem enxergar atualmente as mulheres tipicamente menopáusicas como mulheres fortes, sexys e vitais.

Claro que certas ideias ainda requerem uma revisão; por isso, atualmente muitas mulheres discordam sobre o que, segundo a sociedade, acontece quando se envelhece, e creem que o mais provável é que continuem saudáveis.

Os sintomas físicos da menopausa

Mulher na menopausa brincando com barcos

O que se experimenta na menopausa tem muito a ver com as crenças, com a cultura e com as expectativas de cada mulher. Ainda assim, não há dúvidas de que existem mulheres que sofrem muito com as mudanças nas quais a menopausa implica.

Vejamos quais são os sintomas mais comuns.

Ondas de calor

O calor vasomotor é caracterizado por uma sensação de calor e suor, principalmente na cabeça e no pescoço. Entre 50% e 85% das mulheres sofrem deste sintoma em algum momento do climatério.

A maior parte dessas mulheres só experimenta esse sintoma de forma ocasional e leve, mas entre 10% e 15% sofrem grandes picos de calor e suor que interrompem suas atividades diárias.

As causas desse sintoma são desconhecidas, ainda que acredita-se que têm relação com mudanças ocorridas nos neurotransmissores. Pode causar perturbação no sono e depressão, por isso estamos falando de algo sério.

Ressecamento, irritação e emagrecimento do tecido vaginal

O emagrecimento do tecido vaginal está relacionado com a diminuição dos níveis de estrogênios. Isso faz com que a parte mais dura e resistente da mucosa vaginal se perca e, por conseguinte, sinta-se ressecamento e irritação na região.

Queda de cabelo

A queda de cabelo pode ser um sinal da menopausa

Existe em nossa população um terço de mulheres menopáusicas e pós-menopáusicas que podem experimentar a queda de cabelo. Isso contrasta com o aumento de pelos no rosto, que ocorre porque nem todos os folículos capilares reagem de forma igual perante os hormônios.

A sexualidade

A menopausa não é sinônimo de menor funcionamento sexual, o que acontece é que nossa sociedade absorveu a crença de que o impulso sexual desaparece devido à impossibilidade de se reproduzir.

Claro que certas condições físicas e emocionais podem diminuir a libido, porém, o ser humano pode sentir prazer durante toda a sua vida.

Mudanças de humor, depressão e confusão do pensamento

Como já comentamos, a menopausa por si só não contribui para uma piora da saúde física ou psíquica.

Porém, o momento temporal é sim associado a mudanças do tipo evolutivas que podem supor certas crises: responsabilidade de cuidar dos pais idosos, assuntos não concluídos, brigas, etc.

Além disso, muitas mulheres relatam uma dificuldade para pensar de forma ordenada. Isso não quer supor uma disfunção e costuma acontecer devido ao fato de que nesse período a mulher se concentre mais em seu interior do que em seu exterior.

Osteoporose

Atualmente a osteoporose pós-menopáusica é uma das doenças mais preocupantes na mulher. Obviamente a perda de massa óssea é atribuída a este período, mas a realidade é que durante o climatério perde-se apenas 2% a 5% de massa.

Os dados indicam que até 50% da massa óssea que a mulher perde durante toda a sua vida acontece antes que a menopausa comece. E mais, as estatísticas afirmam que entre 6% e 18% das mulheres entre os 25 e os 34 anos têm uma densidade óssea anormalmente baixa.

Visite o artigo: Exercícios para prevenir e tratar a osteoporose

A criação da saúde durante a menopausa

Mulher na menopausa olhando para beija flor

O que a mulher experimenta durante esse período depende de fatores que vão desde a herança genética, as expectativas e a bagagem cultural até sua autoestima e seu estilo de vida. Por isso, esses anos acabam se transformando na oportunidade de curar as feridas passadas.

Na metade da vida, cada mulher olha para trás com a intenção de refletir e repassar os lugares nos quais esteve e aos quais chegou. É neste momento que uma mulher se lamenta dos sonhos que não realizou quando jovem e prepara o terreno para a fase que se inicia.

Visto que as mudanças hormonais coincidem com problemas de outra índole, como o cuidado com os pais já velhos, a mulher pode chegar a desenvolver crises que não estão tão relacionadas às mudanças físicas, mas sim às emocionais e evolutivas.

Sua forma de relevar conflitos emocionais como a independência dos filhos, o cuidado com os pais ou o simples fato de se dar conta do quão efêmera é a vida, determinam sua saúde durante este período.

Nesta idade estamos em um momento decisivo: podemos continuar vivendo com relações, trabalhos e situações que ficaram pequenas, escolha que apressa drasticamente o processo de envelhecimento e a possibilidade de adoecermos, ou podemos fazer o trabalho de desenvolvimento que o corpo e nossos níveis hormonais nos pedem.

Nesta idade devemos suprir nossa vida a partir da alma. Nada inferior a isso dará resultados. Quando nos atrevermos a fazer isso, nos prepararemos de verdade para a primavera da segunda metade da vida.

– Christiane Northrup –

Principal fonte de pesquisa: Corpo de mulher, sabedoria de mulher. De Christiane Northrup

Ilustrações por cortesia de Claudia Tremblay