“Arriscar-se é perder o equilíbrio momentaneamente. Não se arriscar é perder a si mesmo”, Søren Kierkegaard, filósofo dinamarquês

Embora Søren Kierkegaard tenha escrito essa ideia no século XIX, ela ainda descreve uma situação bastante comum: há pessoas que evitam tomar decisões importantes durante anos porque a incerteza de agir lhes parece mais onerosa do que o mal-estar silencioso de não agir. Essa aparente segurança tem um preço.
A frase não propõe idealizar o risco nem assumi-lo sem pensar antes. Em vez disso, ela se refere ao fato de que toda decisão que importa altera o equilíbrio, e que viver evitando essa mudança pode custar mais do que o desequilíbrio momentâneo que a escolha produz.
Por que não decidir também é uma decisão
Quando alguém adia indefinidamente uma mudança de emprego, o fim de um relacionamento que já não funciona, uma mudança de casa ou o início de um projeto próprio, não está preservando o equilíbrio. Pelo contrário, está escolhendo permanecer onde está, com todas as consequências dessa escolha. Às vezes, isso é uma forma de viver por inércia, em vez de por escolha.
O medo e a dúvida que surgem diante de uma decisão importante são parte natural do processo, não sinais de que a decisão está errada. Kierkegaard descrevia isso como uma experiência de angústia diante da liberdade de escolha: a sensação de exposição que surge quando se percebe que é possível escolher e que essa escolha tem consequências reais.
Leia também: James Baldwin: “Nem tudo o que se enfrenta pode ser mudado, mas nada pode ser mudado até que seja enfrentado”
Dicas para assumir riscos com mais critério
Assumir riscos pessoais não significa agir impulsivamente. Há maneiras de fazer isso com mais consciência:
- Avaliar as consequências reais: antes de decidir, distinguir entre as consequências concretas e o medo imaginário. Muitas vezes, o cenário temido é exagerado.
- Aceitar que a certeza não virá: esperar ter segurança total antes de agir costuma ser uma forma de nunca agir. A certeza não precede a decisão; às vezes, ela chega depois, quando já se está no caminho.
- Não confundir imobilidade com segurança: evitar sistematicamente o risco não protege de nada. O que se evita não desaparece, simplesmente muda de forma.
- Assumir a responsabilidade pela escolha: mesmo quando a decisão for incômoda ou o resultado for diferente do esperado, tê-la tomado conscientemente é diferente de ter chegado a esse ponto por omissão.
- Começar com riscos proporcionais: nem tudo precisa ser uma mudança radical. Tomar decisões menores que envolvam certa exposição ajuda a desenvolver tolerância à incerteza antes de chegar às decisões mais complexas.
- Priorizar a coerência pessoal: Kierkegaard considerava que viver de acordo com o que realmente se é, mesmo que isso incomode ou gere atrito com o ambiente, é mais valioso do que manter uma imagem de estabilidade que não corresponde à realidade interna.
O equilíbrio que se perde e o que se encontra
O desequilíbrio momentâneo a que a frase se refere é a instabilidade que acompanha qualquer mudança real. Mudar de emprego gera um período de adaptação. Encerrar um relacionamento implica um tempo de reajuste. Mudar-se significa reconstruir algo que antes estava estabelecido. Esse período tem um custo, mas também um rumo.
O que Kierkegaard destaca é que o custo de não agir também existe, embora seja mais difícil de perceber. Uma vida vivida principalmente por medo do desequilíbrio pode se tornar cada vez mais limitada, mais distante do que a pessoa realmente é.
Arriscar-se não é um heroísmo vazio. É simplesmente a condição de qualquer decisão que valha a pena ser tomada. Por isso, convém aceitar que dar esse passo gera instabilidade, e que essa instabilidade não é o fim do caminho, mas parte dele.
Este texto é fornecido apenas para fins informativos e não substitui a consulta com um profissional. Em caso de dúvida, consulte o seu especialista.







