Descubra o kitsukuroi técnica japonesa para reparar cerâmica quebrada que lhe fará refletir

· 16 de março de 2017
Além de ser uma forma de reparar a cerâmica quebrada, esta técnica japonesa não oculta as rachaduras, mas as torna o centro da atenção, embelezando ainda mais as peças.

A cerâmica quebrada se parece muito com os fragmentos deslocados de nossas vidas.

Custa muito uni-los porque, após o impacto da decepção, da perda ou da traição, todos nos sentimos como uma xícara ou um prato quebrado.

Mas essa peça fragmentada pode voltar a recuperar sua beleza se a consertarmos de modo adequado. A maioria de nós repararía essa tigela aplicando a clássica cola super rápida.

No entanto, os japoneses levam muito tempo praticando uma arte que, além de uma técnica para salvar a cerâmica, é toda uma filosofia com a qual aprender.

Falamos da Kintsukuroi, ou reparação em ouro: uma estratégia maravilhosa através da qual criar um novo objeto, mais bonito, forte e reflexo de uma dimensão psicológica que todos conhecemos: a resiliência.

Kitsukuroi: A arte de reparar a cerâmica quebrada

Cerâmica quebrada

A quebra de um objeto conta uma história. Talvez, esse prato que caiu no chão por um descuido, por estarmos com a cabeça em outro lugar, longe, muito longe de nossa realidade.

  • Pode ser que essa peça de nosso jogo de chá tenha se quebrado em uma reunião com amigos, enquanto ríamos, enquanto compartilhávamos um bom momento de felicidade.
  • Cada entalhe na porcelana faz referência a um momento de nossa vida. Jogá-la no lixo é, sem dúvida, algo desnecessário. Seria como abandonar um ferido, como nos negar a sanar um mal de amores…

Tudo isso são reflexões que se encaixam nessa filosofia nipônica do kintsukuroi, que já é conhecida no mundo inteiro e que tanto agrada às pessoas.

Vejamos agora mais detalhes de interesse.

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Origem do kintsukuroi

Para compreender esta técnica tão especial, devemos viajar para o final do século 15, à época dos Xoguns.

  • Ashikaga Yoshimasa foi o xogum que deu início a esta tradição milenar. Depois que suas xícaras de chá favoritas se romperam, decidiu enviá-las à China, para serem reparadas.
  • Pouco tempo depois, as xícaras foram devolvidas com alguns grampos muito chamativos de metal que prejudicavam toda a beleza dos dois pedaços de cerâmica.
  • O xogum ficou muito incomodado com o resultado, e pediu a seus artesãos que dessem uma solução àquilo.
  • Eles fizeram isso, limitaram-se a selar os pedaços quebrados com uma pasta em ouro para criar, assim, um objeto diferente, mais bonito: mais poderoso.

O xogum, então, ficou encantado.

Cerâmica reparada com ouro

Como realizar o kintsukuroi com nossa porcelana quebrada

Estamos certos de que, neste ponto, você já foi cativado pela técnica do kintsukuroi.

Se você se anima, se gostar e quiser experimentar com algumas xícaras ou pratos que podem ter quebrado em algum momento, propomos que você realize esta técnica que, na realidade, é mais simples do que pensamos.

Do que preciso

  • Massa para cerâmica
  • Pó de ouro sintético (você pode usar, inclusive, purpurina dourada)
  • A peça quebrada de cerâmica
  • Um furador
  • Uma espátula

Como fazer

Começaremos misturando a massa para cerâmica com o pó de ouro sintético. Você pode fazer isso sobre um pedaço de papelão, ou em um recipiente específico.

  • A quantidade vai depender sempre dos pedaços que temos para reparar e unir.
  • Com a ajuda de um palito ou espátula, aplicamos essa combinação nas bordas das peças quebradas. Em seguida, junte-as e pressione durante alguns instantes.
  • No momento, você verá como a linha em ouro envolve essa cicatriz, essa ferida que agora conforma um objeto muito mais bonito e único ao mesmo tempo.

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Por último, basta deixar a peça secar por algumas horas e pronto.

Pessoa arrumando peça de cerâmica

A beleza está na história que o objeto conta, não no objeto em si

O kintsukuroi pode ser aplicado perfeitamente à nossa própria vida.

A resiliência é um “tendão psíquico” que atua quase como essa massa dourada que une nossos pedaços quebrados, que nos empurra a selar as feridas e, por sua vez, aprender com elas.

Longe de nos envergonharmos pelos erros cometidos, pelos fracassos ou sonhos que se desvaneceram, temos que ser capazes de ver a beleza nessa linha da vida que, de algum modo, nos ajudou a sermos o que somos agora: pessoas mais maduras.

Criaturas mais sábias que aprenderam com a adversidade para “brilhar”.

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A cerâmica quebrada que foi reparada através do kitsukuroi tem, além disso, uma faculdade maravilhosa: é mais forte, as xícaras e os pratos já não se rompem com tanta facilidade.

Ainda assim, as pessoas que são sábias em resiliência e que também selaram suas feridas com ouro, já não são tão frágeis como antes. É algo que, sem dúvida, todos aprendemos com o tempo.