A história da mulher que ficou famosa pelos glúteos

· 31 de março de 2015

Essa história aconteceu no século XIX, época em que a escravidão deixou relatos lamentáveis. O que contaremos agora fala sobre Saartjie Baartman, uma jovem que foi usada como exibição por sofrer de uma anormalidade genética nos glúteos.

Sequestro e escravidão

Saartjie Baartman tinha vinte anos e uma vida normal em seu povoado. Pertencia à etnia africana dos Khoisan; povo acostumado a tirar seu sustento da terra, de seus animais e com arraigados costumes religiosos.

Essa jovem não conhecia nada do que existia além do horizonte de sua tribo naquela bela terra africana; um continente amplamente atacado e humilhado pelos europeus.

Mas sua vida mudou radicalmente no dia em que foi levada por Hendrik Cezar e Alexander Dunlop; dois franceses que viram no corpo de Saartjie uma particularidade que lhes renderia muito dinheiro.

A jovem sofria o que hoje se conhece como esteatopigia, uma doença muito comum dentre tribos africanas como bosquímanos e hotentotes; e que não é mais do que uma acumulação anormal de gordura nos glúteos. Também é algo normal em todas as pessoas que sofrem de obesidade mórbida.

Mas o caso de Saartjie era, pelo visto, muito chamativo e esses homens viram na jovem uma forma de se enriquecer; exibindo-a em teatros e feiras de Londres.

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A “Vênus negra” dos glúteos gigantes

mulher humilhada por seus glúteos

Ela foi chamada de Vênus negra ou “A Vênus Hotentote”; que fazia referência ao povo e à etnia da qual era proveniente.

Sem saber muito bem como ou porquê, Saartjie percebeu como, em poucos dias, estava sobre os palcos de vários teatros de Londres. O espetáculo era tanto vulgar quanto humilhante.

A jovem tinha que ficar nua diante de um público e, simplesmente, exibir suas formas diante de todos aqueles olhos cheios de maldade.

A maior parte do público, como já era de se esperar, estava composta por homens de diferentes classes sociais que não deixavam de pagar altos preços para ver a jovem hotentote com seus grandes glúteos.

O mesmo espetáculo se repetia todas as noites, e assim foi durante quatro longos anos; uma autêntica tortura psicológica infligida a esta mulher que sem querer, nem desejar, se tornou uma atração de feira.

Os homens que a escravizavam enriqueceram tão rápido que não duvidaram em repetir o espetáculo em outra capital.

Dessa forma, depois de quatro anos em Londres eles a levaram até Paris, onde o show também obteve notável sucesso.

Olhares maldosos, curiosos e famintos pelos glúteos particulares da jovem Saartjie pagavam espetáculos em público;  mas também a desejavam intimamente, em atos privados. Era dessa forma que seus “proprietários” recebiam mais e mais dinheiro.

Felizmente, a voz dos abolicionistas não demorou em ser ouvida e pediu que esse espetáculo, essa imperdoável humilhação e ato depravado, fosse proibido de imediato.

Hendrik Cezar e Alexander Dunlop tentaram se defender das críticas que receberam alegando que Saartjie atuava de modo voluntário, porque queria; dessa maneira, apresentavam um contrato assinado por ela, porém, o documento era escrito em holandês, um idioma que a jovem, obviamente, desconhecia por completo.

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O fim de uma vida de sofrimentos

Mulher humilhada por seus glúteos teve sem fim na Africa

As críticas ao espetáculo da Vênus Negra se tornaram maiores e mais frequentes. Dessa maneira, os proprietários se viram obrigados a acabar com tudo e vender Saartjie a um comerciante francês; que quis se aproveitar de sua fama de uma forma mais obscura e humilhante.

Assim sendo, ele organizava espetáculos privados em que ela era exibida e prostituída em antros das ruas parisienses. Dessa maneira, o homem que a desejasse podia ter a famosa Vênus Hotentote.

Passaram-se vários anos até que lentamente todo esse mundo de penúria e infelicidade se refletiu em sua saúde.

Não ficou clara a origem de sua morte, mas não é preciso pensar muito a respeito, pois a jovem foi exposta aos riscos de contrair sífilis, tuberculose, pneumonia; além de muita tristeza diante de uma vida que nunca conseguiu compreender.

Talvez muitos pensem que nesse ponto de sua vida ela por fim teve o merecido descanso após a morte, porém não foi assim que as coisas aconteceram.

Depois de morrer seu corpo foi dissecado para ser novamente exibido no Museé de l’Homme de Paris.

Seu cérebro, suas genitálias e seu esqueleto foram exibidos durante setenta anos, quando decidiram finalmente guardar aquele testemunho da crueldade humana e tudo o que representou para nossa sociedade.

O verdadeiro descanso para Saartjie Baartman chegou quando Nelson Mandela, em 1984, pediu que seus restos mortais voltassem à África para que fossem devidamente enterrados; para que ela por fim encontrasse o descanso e a paz que merecia nessa terra que a viu nascer; e de onde ela nunca deveria ter saído.

A mulher de grandes glúteos, ou Vênus Negra, é mais um exemplo de histórias que jamais deveriam ter acontecido; e que, sem sombra de dúvida, não devem jamais se repetir.

  • Rago, M. (2010). A autobiografia ficcional da Vênus Hotentote. STEVENS, Cristina. Gênero e feminismos: convergências (in) disciplinares. Brasília: Editora Ex Libris.
  • PELLEGRINI, L. (2009). Saartjie: a vênus hotentote. Revista Planeta, São Paulo: Ed. Três, edição442.