A história de Marieke Vervoot, a atleta paraolímpica que assinou sua eutanásia

· 2 de novembro de 2016
Após diagnosticarem a sua doença, os médicos recomendaram a Marieke Vervoort se manter ativa. No esporte, ela encontrou um motivo para seguir em frente. Com a Rio 2016, já conquistou três medalhas olímpicas.

Marieke Vervoort é uma lutadora. Esta atleta belga de 37 anos preparou seus documentos para a eutanásia em 2008 e, apesar de saber muito claramente que “ainda não chegou sua hora”, sabe que ela chegará, e sabe também como quer que seja sua morte.

Algo que todos sabemos é que não temos pleno controle sobre o que a vida tem planejado para nós. Doenças, acidentes, fatos inesperados…. São como golpes que nos modelam e que nos põem à prova.

Não podemos escolher o que a vida nos oferece, mas, às vezes, sim, podemos escolher como morrer.

Marieke Vervoort abriu, mais uma vez, o debate sobre a eutanásia, quando começou a circular o falso rumor de que, depois dos jogos paraolímpicos, pensava em dizer adeus a este mundo.

Isso não é verdade. Não é no momento, mas suas palavras, cheias de coragem, sabedoria e sensibilidade, impressionaram o mundo.

Não importa se estamos de acordo ou não com o tema da eutanásia, a única coisa que esta grande mulher merece de nós é o pleno respeito e absoluta admiração.

Hoje, em nosso espaço, queremos contar sua história.

A última corrida de Marieke Vervoort

Marieke Vervoort move-se pela vida com a intensidade de quem deseja aproveitá-la por inteiro. Cada novo dia, cada imagem, cada som, cada bocado de oxigênio.

  • Ela pratica atletismo, carrovelismo (Windcar) e, antes da doença lhe privar da mobilidade, era triatleta. Cabe destaca que, apesar de ter conseguido uma medalha de prata nos Jogos do Rio 2016, ela também conta com outros troféus.
  • Competiu nos Jogos Paraolímpicos de Londres 2012. Conquistou duas medalhas, uma de ouro e outra de prata.
  • Em seu país, também foi premiada em várias ocasiões. Segundo ela, o reconhecimento que lhe deixou mais feliz foi o outorgado pela Associação Flamenca de Jornalistas Esportivos, que reconhecem seu esforço, seu caráter e seu exemplo.

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No entanto, segundo a própria Marieke Vervoort, esta será, certamente, sua última corrida em jogos Olímpicos.

Marieke Vervoort com medalha

A doença degenerativa

Marieke sofre de uma doença muscular degenerativa que a deixou, desde uma idade muito precoce, em cadeira de rodas. O problema não está na deficiência em si; mas, antes de tudo, no sofrimento que enfrenta a cada dia.

  • Já são mais de 20 anos com esta luta cotidiana, em que percebe como o próprio corpo responde um pouco menos a cada ano que passa.
  • Ela sofre com desmaios, ataques de epilepsia, intensas dores e, em pouco tempo, sabe que deixará de ver. Na verdade, só tem cerca de 20% da visão. Em poucos meses ou anos, a escuridão lhe abraçará por completo.
  • A sua existência é um relato de uma vida condenada à invalidez permanente, à cegueira, à desconexão total daquilo que tanto ama: a vida.

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Os documentos para a eutanásia

Desde muito cedo, ela soube o que lhe ocorreria. Após o diagnóstico da doença, segundo suas próprias palavras, pensou em suicídio. No entanto, algo ocorreu.

  • Seus médicos comentaram que um modo de ganhar qualidade de vida era se manter ativa. O esporte é luta e é sobrevivência, e isso a agradou. Encontrou um motivo.
  • Começou a jogar basquete em cadeira de rodas. Mais tarde, experimentou o mergulho e a natação, mas foi no triatlo que se encontrou, onde vieram os primeiros prêmios e o reconhecimento.
  • Em 2006, se tornou campeã no mundo do para-triatlo, uma conquista que obteve por dois anos seguidos.

No entanto, em 2008, sua doença piorou ao ponto de não poder continuar com o triatlo. Sua vida se deteve. Mas seu país lhe ofereceu apoio: pediram-lhe para contar sua história na televisão.

Marieke Vervoort competindo

Marieke Vervoort assim o fez. “Wielemie, esportes para a vida”. Ela também fez outra coisa: preparar seus documentos para sua eutanásia.

Seu corpo já não servia para esse esporte que tanto amava, e sabia também que, em alguns anos, seu corpo e sua visão se apagariam para sempre.

Seu “momento” ainda não chegou, mas chegará…

Depois de deixar de lado o triatlo, chegou ao Windcar, um tipo de corrida em que os carros se movem graças à ação do vento, e em que se tornou vice-campeã em 2011.

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Depois disso, iniciou outra especialidade: o atletismo em cadeira de rodas. Após ser incluída na categoria T-52, bateu todos os recordes continentais.

  • Suas conquistas nos jogos Olímpicos de Londres 2012 a encheram de emoção. Continuava tendo motivos para viver, apesar da dor acompanhá-la a cada dia.
  • Tanto é assim que, atualmente, só pode dormir em períodos de 10 minutos, devido à intensa dor.
  • Os ataques de epilepsia também estão cada vez mais intensos. Ela sabe que seu tempo se vai como um lento entardecer, mas, enquanto isso, e, segundo suas próprias palavras, desfrutará ao máximo da vida.
Marieke Vervoort com seu cachorro

Mas quando a cegueira completa chegar, quando seu corpo já não for seu, mas da dor e da total paralisia, ela dirá adeus. A eutanásia não é uma rendição. É um descanso para os mais valentes.

Já escolheu como será seu funeral: suas cinzas serão lançadas ao mar em Lanzarote (Ilhas Canárias, Espanha).

Quer que os seus se lembrem dela com um sorriso, porque é assim que ela os verá a todos quando descansar em paz. Sem sofrimento.