Quanto tempo pode levar para desenvolver uma vacina contra o coronavírus?

22 de maio de 2020
A descoberta da vacina contra o coronavírus é uma prioridade para os laboratórios do mundo todo, mas você realmente sabe o que é uma vacina? Quais são as etapas necessárias para desenvolvê-la? Quando ela vai estar pronta? Vamos responder a essas perguntas a seguir.

“Foi descoberta uma vacina contra o coronavírus”… Diversas vezes vemos notícias como essa, que acabam desaparecendo rapidamente e não voltam a ser discutidas. Em geral, procura-se uma manchete que chame atenção e costuma-se omitir a extrema complexidade do processo de criação de uma vacina com o objetivo de transmitir esperança para a população.

A triste realidade é que o processo de criação de uma vacina é caro e, acima de tudo, lento. Por mais que os laboratórios do mundo todo estejam unindo forças e que gigantes, como a fundação Bill Gates, tenham investido recursos nessa missão colossal, ainda há um longo caminho pela frente.

Quanto tempo pode levar para desenvolver uma vacina contra o coronavírus? Até agora não há uma resposta precisa. Enquanto isso, vamos analisar o que é uma vacina e, acima de tudo, discutir o complexo processo que envolve o seu desenvolvimento.

Vacinas: combatendo o inimigo

Uma vacina é uma preparação destinada a gerar imunidade contra um patógeno, estimulando a produção de anticorpos. Quando tomamos uma vacina, geralmente recebemos uma solução com formas enfraquecidas ou mortas do micróbio que queremos combater.

Esse agente estimula o sistema imunológico, que é capaz de reconhecer, destruir e, acima de tudo, se lembrar de uma ameaça no caso de futuras exposições ao mesmo patógeno. Nosso sistema imunológico vai saber como agir em futuras invasões contra o inimigo reconhecido, evitando, assim, uma infecção.

É por esse motivo que a gripe não é um problema para a população global: se tivermos recebido a vacina, não temos com o que nos preocupar.

Mulher tomando vacina
As vacinas têm por finalidade gerar imunidade contra agentes patógenos.

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Desenvolvimento de uma vacina: primeiros passos

O desenvolvimento de uma vacina é um processo longo e complexo que, geralmente, demora entre 10 e 15 anos, e envolve a participação conjunta de organizações públicas e privadas.

Mas não se assuste: o desenvolvimento da vacina contra o coronavírus é de prioridade máxima e estima-se que ela estará pronta em 12 a 18 meses. Apesar disso, os passos são complexos. A seguir, damos mais detalhes sobre esse processo.

1. Etapa de exploração

Essa etapa envolve todos os passos básicos realizados em um laboratório. O primeiro passo, que é mais complexo do que parece, é isolar o vírus fora do paciente e fazer com que permaneça em um meio de cultivo. No caso do coronavírus, essa conquista ocorreu um mês após a descoberta do vírus.

Uma vez isolado o vírus, é possível realizar modificações para enfraquecê-lo ou isolar suas toxinas e, assim, transformá-lo em uma futura vacina. Essa primeira etapa, em condições normais, pode durar de 2 a 4 anos.

2. Etapa pré-clinica

Nessa fase, o agente enfraquecido e isolado é inoculado em tecidos animais isolados ou em animais vivos (como ratos de laboratório) para verificar se realmente ocorre uma reação no sistema imunológico do organismo.

Esse passo nunca é realizado em humanos, pois o risco de infecção é extremamente alto. Muitas vacinas não avançam além dessa fase, pois não se consegue promover a resposta desejada no organismo. Uma vez descritos os primeiros testes exploratórios, se a vacina funcionar em animais, começa o desenvolvimento em humanos.

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Estudos clínicos com humanos

Aqui começa a parte mais complexa e, sem dúvida, crucial para o correto desenvolvimento da vacina.

  • FASE I: escolhe-se um pequeno grupo de adultos, geralmente de 20 a 80 anos, nos quais será inoculado o agente infeccioso, morto ou enfraquecido. Os objetivos dos testes da fase I são avaliar a segurança da vacina candidata e determinar o tipo e o alcance da resposta imunológica que ela provoca.
  • FASE II: o grupo experimental aumenta, passando a ser composto por várias centenas de pessoas. Podem entrar nessa fase pessoas consideradas pertencentes aos grupos de risco da doença.
  • FASE III: agora já estão envolvidas dezenas de milhares de pessoas nos testes de vacinação. Alguns efeitos secundários incomuns, que podem não ser aparentes em grupos menores, podem aparecer. Todo mundo já leu a seguinte informação sobre as contraindicações de muitas vacinas: “1 em cada 1.000 pessoas sente fortes dores de cabeça”, por exemplo. Embora seja uma porcentagem muito baixa, esse sintoma precisa ser descrito.

Deixando de lado os aspectos legais e de aprovação governamental, uma vez superada a fase III, a vacina deve ser viável.

Desenvolvimento de vacinas
Antes de serem produzidas em massa, as vacinas passam por um processo de desenvolvimento com no mínimo três fases.

Vacina contra o coronavírus: em qual ponto estamos agora?

A maioria dos países ainda está na etapa pré-clínica. Mais testes de vacinas em animais são necessários para consolidar sua eficácia. Contudo, desde o final de março, a China passou para a Fase I de exploração com humanos.

Essa é uma boa notícia, mas precisamos estar cientes de que o acompanhamento mínimo de voluntários vacinados será de 6 meses. Depois, o grupo de amostras precisa ser expandido para que, após o novo período de acompanhamento, finalmente a vacina comece a ser produzida em massa.

É triste a realidade de ter que conviver com o coronavírus por um longo período de tempo, mas também precisamos considerar que convivemos com muitas outras doenças para as quais não existe uma vacina. Devemos ter em mente que o mais importante é reduzir o grupo de pessoas contaminadas e que, quando conseguirmos frear a pandemia, a pior parte já terá passado.

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