Lúpus eritematoso sistêmico

· 1 de outubro de 2017
O lúpus eritematoso sistêmico é o paradigma das doenças autoimunes.

O lúpus eritematoso sistêmico (LES) é uma doença reumatológica (doença que afeta a pele e o tecido conectivo), considerada o paradigma das doenças autoimunes.

Por ser uma doença autoimune, sua maior característica é a presença de anticorpos. Ou seja, anticorpos fabricados pelo sistema imunológico do próprio indivíduo que “atacam” às células do próprio organismo.

No caso do lúpus o resultado final da ação destes auto anticorpos é o surgimento de lesões em numerosos órgãos e tecidos. Esta é a razão pela qual se considera uma “doença sistêmica” ou “não orgãoespecífica”.

Trata-se de uma doença crônica que transcorre com períodos de remissão e de exagero dos sintomas.

Prevalência

O lúpus eritematoso sistêmico afeta mais ao sexo feminino (10: 1) e às pessoas negras (3:1). Ainda, o risco é maior em familiares diretos de pessoas doentes do que no resto da população.

Até em 65% dos casos a doença surge entre os 20 e os 40 anos.

Etiologia

A causa exata da doença se desconhece, ainda que pareça inegável que a etiologia seja multifatorial.

Uma série de fatores genéticos, hormonais e ambientais atuariam sobre um sistema imunológico geneticamente pré-disposto, o que, em última instância, daria lugar às manifestações clínicas típicas da doença.

Sistema imunológico “geneticamente pré-disposto”: o que isso significa?

O sistema imunológico de uma pessoa não desencadeia uma resposta anômala porque ele simplesmente quer, mas sim porque é necessário que exista uma pré-disposição a isso.

Esta pré-disposição se deve à existência de genes de suscetibilidade (genes relacionados de maneira indireta com a doença, que fazem com que quem a possui tenha mais probabilidade de sofrer da doença) e a ausência de uma série de genes protetores.

Teste em sangue contaminado com lúpus eritematoso sistêmico

A soma destes dois fatores tem como resultado a modificação da resposta imunológica frente a fatores externos e internos. Quando esta resposta é excessiva ou se prolonga por muito tempo, surge a autoimunidade.

Fatores condicionantes

Fatores genéticos

O lúpus eritematoso sistêmico tem uma importante associação com o HLA – DR3 e o HLA – DR2 e com alguns genes que codificam componentes do sistema do complemento (relação com déficit de C2 e C4).

Os HLA (antígenos leucocitários humanos em inglês) são moléculas presentes em todas as células do organismo das pessoas, que permitem ao sistema imunológico diferenciar o que é próprio (para não atacá-lo) do que é alheio (para atacar).

O sistema do complemento é formado por uma série de moléculas cujo objetivo é eliminar qualquer elemento não reconhecido como próprio.

Fatores hormonais

A maior prevalência do lúpus eritematoso sistêmico em mulheres na idade fértil do que em homens levou a propor que exista uma relação entre os hormônios sexuais e a doença.

Portanto, os hormônios próprios (estrogênios, progesterona, prolactina, testosterona…) e os exógenos (tratamentos de substituição ou anticoncepcionais) parecem desempenhar um papel importante na doença, apesar de não existir ainda um consenso sobre a importância de sua influência.

Fatores ambientais

Alguns fatores ambientais parecem poder desencadear ou intensificar o lúpus eritematoso sistêmico.

  • Radiação ultravioleta, relacionada com a fotossensibilidade (resposta exagerada à luz solar) própria do quadro e à aparição de novos brotos depois da exposição prolongada ao sol.
  • Infecções por alguns vírus, como o vírus de Epstein – Barr ou alguns retrovírus.
  • Induzido por fármacos, no qual o quadro clínico poderia se dever à atuação de certos fármacos sobre o sistema imunológico, como acontece com a procainamida (antiarrítmico) ou a hidralazina (anti-histamínico).

Patogenia

O resultado final é a formação de imunocomplexos e seu depósito nos diferentes tecidos. Denomina-se imunocomplexo ao resultado da união antígeno – anticorpo.

Tecido de uma pessoa afetada pelo lúpus eritematoso sistêmico

Este depósito é um dos principais mecanismos pelos quais se produz a lesão tissular, junto com processos de inflamação e apoptose (morte celular) resultado da resposta imunológica anômala.

Clínica

  • Sintomas gerais (95%): fatiga, falta de apetite, perda de peso, mal-estar geral. A dor nas articulações é quase constante.
  • Manifestações músculo – esqueléticas (95%): fundamentalmente dores musculares e articulares. São os sintomas mais frequentes.
  • Lesões cutâneas (80% dos casos): mais da metade dos pacientes com lúpus apresenta fotossensibilidade. A lesão cutânea pode se apresentar de três formas:
  1. Lúpus cutânea aguda (50%): aparece uma das lesões mais características da doença, um eritema facial (vermelhidão da pele do rosto) em forma de asas de borboleta. Não deixa cicatrizes e seu desenvolvimento se relaciona como sol e com os novos brotos. Em ocasiões pode ser acompanhado de uma erupção cutânea avermelhada que afeta a outras regiões (pescoço, ombros, braços…).
  2. Lúpus cutâneo subagudo (10%): aparecem lesões cheias de bolhas simétricas no pescoço e nos ombros quando a pessoa se expõe ao sol. Não deixa cicatriz, ainda que possam ficar regiões onde a pigmentação da pele se altera.
  3. Lúpus cutâneo crônico (30 %).
  • Alterações hematológicas (80%): o mais frequente é a aparição de anemia crônica.
  • Manifestações neurológicas: como dor de cabeça, depressão, ansiedade, convulsões…
  • Afeta o pulmão e a pleura: na metade dos pacientes. A mais frequente é a pleurite e a mais grave a hemorragia alveolar massiva (por sorte esta última é muito rara).
  • Manifestações cardíacas: a mais frequente é a pericardite.
  • Nefrite lúpica. Afeta a metade dos pacientes e é um sinal de mal prognóstico.

Podem aparecer muitas outras manifestações em função do órgão afetado, tais como abortos, queratoconjuntivite…

Quase a metade dos pacientes apresenta lesões na mucosa oral e nas fossas nasais, em forma de aftas. A dor nas articulações é quase constante.

Diagnóstico do lúpus

A alteração mais característica do lúpus é a aparição de auto anticorpos ANA (auto anticorpos anti nucleares) presentes em 80 a 90% dos pacientes.

  • Os ANA não são específicos do lúpus, já que também aparecem em outras doenças autoimunes.
  • Os ANA podem não estar presentes ainda que o paciente tenha lúpus. Os pacientes ANA negativo (10 – 20%) têm maior clínica e podem apresentar fenômeno de Raynaud.
  • Dentro dos ANA, os mais específicos para o lúpus são os chamados Anti DNA DS.