A tempestade de citocinas e o coronavírus

22 de maio de 2020
A tempestade de citocinas é um processo que raramente ocorre em pacientes com COVID-19. No entanto, merece ser explicado em detalhes.

Existem algumas terminologias complexas que têm ganhado destaque durante essa crise causada pelo coronavírus. Muitas vezes, a maioria das pessoas não as reconhece. Uma delas é a tempestade de citocinas. Antes de abordar especificamente esse processo delicado, é necessário fazer uma série de esclarecimentos.

Dados a esclarecer sobre a COVID-19

Durante o mês de março, a taxa de letalidade global do coronavírus foi estimada em 3,7% do total de infectados.

A probabilidade de um desfecho fatal da infecção está discriminada por faixa etária. Até os 40 anos, menos de 0,2% dos que contraem a doença acabam morrendo, e nos grupos mais vulneráveis, maiores de 80 anos, essa porcentagem chega a quase 15%.

É necessário esclarecer esses dados, pois a temida tempestade de citocinas ocorre em uma porcentagem muito baixa de pacientes. Precisamos continuar mantendo a calma e considerar esses processos como meramente informativos.

Propagação de um vírus

Quando o sistema imunológico nos prejudica

Doenças como a COVID-19 ou a gripe causada pelo vírus Influenza, nos casos mais graves, podem se tornar fatais devido a uma hiperativação do sistema imunológico. Esse processo é conhecido como tempestade de citocinas.

As citocinas são pequenas proteínas liberadas por várias células do corpo, incluindo aquelas que coordenam a resposta do nosso organismo aos patógenos por meio da inflamação.

As citocinas direcionam as células imunitárias, como os linfócitos T e os macrófagos, para o foco da infecção. É um processo retroativo, pois a liberação de citocinas promove a produção de uma maior quantidade delas pelas células imunológicas.

Esse sistema de proteção é tão eficaz que pode acabar sendo excessivo. Por exemplo, quando o vírus da COVID-19 entra nos pulmões, as citocinas direcionam os anticorpos para esse lugar, onde vão combater o patógeno provocando uma inflamação local.

Uma liberação descontrolada de citocinas ou um ciclo de retroalimentação muito poderoso pode levar à hiperinflamação do tecido pulmonar. Isso pode prejudicar gravemente o paciente ou até acabar com a sua vida.

As tempestades de citocinas são comuns em pessoas idosas e não são causadas apenas pelo coronavírus. Elas também podem ser provocadas por outras infecções virais, como a gripe, a SARS, a MERS ou doenças de outras origens, como a esclerose múltipla e a pancreatite.

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O que fazer diante da tempestade de citocinas?

A tempestade de citocinas e a COVID-19

Entramos em um terreno mais específico, repleto de terminologias que podem ser confusas. Então, para simplificar as coisas, essa questão pode ser resumida em: talvez, nesses casos, seja melhor diminuir a eficácia do sistema imunológico. Parece uma loucura, não é mesmo?

Os esteroides são hormônios utilizados para esse tipo de processo, pois sabe-se que, de forma pontual, diminuem a intensidade da resposta imune. Contudo, sua eficácia não parece ter sido claramente comprovada em pacientes com a COVID-19.

A parte realmente difícil é encontrar um equilíbrio no qual o sistema imunológico seja suficientemente funcional para combater o vírus, mas não tanto a ponto de colocar em risco a vida do paciente.

De qualquer forma, há boas notícias em relação a esse assunto. Um estudo realizado na China utilizou um anticorpo que inibe, até certo ponto, a resposta imunológica. Ele é utilizado para pacientes com artrite ou pacientes com câncer que sofrem tempestades de citocinas.

O anticorpo tocilizumabe -Actemra- foi administrado em 21 pacientes em estado grave com COVID-19. Em poucos dias, a febre e outros sintomas perderam intensidade consideravelmente. Desses 21 pacientes tratados, 19 conseguiram sobreviver, recebendo alta após duas semanas.

Esse anticorpo e outros semelhantes estão sendo testados em países como a Itália. No entanto, como se pode observar, os grupos amostrais são pequenos demais para que seja possível garantir uma eficácia total.

Para saber mais: Como o coronavírus infecta as células pulmonares

Conclusão: a tempestade de citocinas é preocupante?

Nesse artigo, pudemos ter contato com o pior cenário possível: a situação excepcional na qual o próprio sistema imunológico exagera e acaba agindo contra o paciente. Isso não significa que todas as pessoas que contraírem a doença vão correr um risco real de morte, e sim o contrário, pois a tempestade de citocinas ocorre em uma minoria e de maneira excepcional.

Contudo, é necessário destacar a importância de continuar mantendo medidas de distanciamento e promovendo a responsabilidade cidadã. Esse tipo de situação é rara, mas sua existência deve ser considerada, principalmente com o objetivo de proteger os mais velhos e os mais vulneráveis durante a pandemia.

  • Xu, X., Han, M., Li, T., Sun, W., Wang, D., Fu, B., … & Zhang, X. (2020). Effective treatment of severe COVID-19 patients with tocilizumab. ChinaXiv202003(00026), v1.
  • Zhang, C., Wu, Z., Li, J. W., Zhao, H., & Wang, G. Q. (2020). The cytokine release syndrome (CRS) of severe COVID-19 and Interleukin-6 receptor (IL-6R) antagonist Tocilizumab may be the key to reduce the mortality. International Journal of Antimicrobial Agents, 105954.
  • Cytokine storm, newscientist. Recogido a 28 de abril en https://www.newscientist.com/term/cytokine-storm/
  • Tormenta de citoquinas, wikipedia. Recogido a 28 de abril en https://es.wikipedia.org/wiki/Tormenta_de_citocinas.
  • What is a cytokine storm, Knowable magazine. Recogido a 28 de abril en https://www.knowablemagazine.org/article/health-disease/2020/what-cytokine-storm