O que é um supercontagiador em uma pandemia?

22 de maio de 2020
Um supercontagiador é uma pessoa infectada que transmite a sua doença a uma quantidade maior do que a média de pessoas que costumam ser infectadas. A seguir, explicamos por que isso acontece e quais são as suas implicações em uma pandemia.

A pandemia de coronavírus continua fazendo parte das nossas vidas e nos obrigou a nos familiarizarmos com diferentes terminologias que surgem nos meios de comunicação. Desde testes de detecção passando por números, taxas, previsões e estatísticas, estamos interpretando uma grande quantidade de informação epidemiológica. Agora, surgiu um novo termo: supercontagiador.

A que ele faz referência? Qual papel ele desempenha na epidemia? Esclarecer estas perguntas é importante para entender como o supercontagiador contribui para a disseminação do vírus. Por isso, a seguir vamos analisar mais profundamente este termo.

O que é um supercontagiador?

Um supercontagiador é definido como um indivíduo infectado capaz de infectar mais pessoas do que a média. Vamos dar um exemplo:

  • O valor R0 – número básico de reprodução – do coronavírus está entre 1,4 e 2,5, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Isso significa que cada paciente infectado contagia, em média, mais de uma pessoa e menos de três pessoas no decorrer da sua doença.
  • O vírus SARS apresentava um R0 de três, aproximadamente. Durante o surto desta doença, foram identificados supercontagiadores capazes de infectar até 36 pessoas cada. Ou seja, o número de reprodução individual era mais de 10 vezes maior nessas pessoas do que nos pacientes normais.
  • No início da pandemia do coronavírus COVID-19, foram observados casos de supercontagiadores em Wuhan, na China. Um exemplo claro foi o de um paciente que transmitiu a doença a pelo menos 16 profissionais de saúde.
  • Outros casos foram identificados no resto do mundo. Em Nova Iorque, por exemplo, um juiz transmitiu a doença a pelo menos 20 pessoas.

Uma ideia deve ficar clara: o número básico de reprodução representa uma média, e o número de reprodução individual dos supercontagiadores é descabido em comparação com esta média. Uma vez que compreendemos a definição do termo, é necessário entender a importância do supercontagiador durante a pandemia.

Mulher usando máscara na rua
Os pacientes de COVID-19 classificados como supercontagiadores podem infectar mais pessoas do que a média.

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Um jogo estatístico

Como todos os processos naturais, a importância desses indivíduos é mensurada por meio de teoremas matemáticos. É necessário entrar no mundo dos números com o Princípio de Pareto. Esse teorema descreve o fenômeno estatístico por meio do qual, em qualquer população que contribui para um efeito comum, uma pequena parte da população contribui para a maior parte do efeito.

Em outras palavras, esta é a regra do 20/80. Ou seja, 20% dos infectados são causadores de 80% das infecções. Claramente, nem todos os casos de supercontagiadores correspondem a esta regra geral, mas esta distribuição já foi observada em outras epidemias.

Ainda assim, a transmissão dos supercontagiadores pode ocorrer mesmo que não cumpra a regra do 20/80. Afinal, o que faz de um infectado um supercontagiador?

Fatores de risco

Existem diversas teorias a respeito de como um paciente pode chegar a contagiar um número desmesurado de pessoas. No entanto, a causa exata ainda não é conhecida.

  • Coinfecção com outros patógenos: a convivência de mais de um patógeno em nosso corpo pode favorecer uma maior transmissibilidade de um deles – ou dos dois – a outras pessoas. Estudos indicam que pacientes que têm HIV e outra doença ao mesmo tempo apresentam um maior desenvolvimento da mesma do que os que não têm uma coinfecção.
  • Sistema imunológico debilitado: um sistema imunológico debilitado pode não ser capaz de frear eficazmente a expansão de um vírus em nosso corpo, aumentando a carga viral. Uma carga viral superior à média está associada a uma maior capacidade de transmissão.
  • Sistema imunológico eficaz: outra possibilidade é de que o sistema imunológico do infectado esteja tão preparado que nem se dê conta de que está doente, transmitindo o vírus a muitas outras pessoas, já que o paciente continua vivendo sua vida normalmente.
Proteção contra o coronavírus
Até o momento, não se sabe ao certo por que alguns indivíduos são supercontagiadores. No entanto, várias teorias tentam explicá-los.

Este estudo publicado na revista Synapse obteve resultados interessantes em relação ao tema: durante a pandemia de SARS, foram monitorados pacientes considerados supercontagiadores e pacientes normais. Diferentemente do que se acreditava, não houve diferenças na sintomatologia clínica dos dois grupos.

Tanto os supercontagiadores quanto os pacientes “normais” sofreram efeitos similares no que diz respeito à febre e aos danos pulmonares. Foi observada apenas uma diferença: os supercontagiadores tiveram que permanecer mais tempo no hospital até conseguirem superar a doença.

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Um termo cheio de incógnitas

Tanto a identificação quanto o papel dos supercontagiadores durante uma pandemia são parâmetros difíceis de discernir. Ainda assim, especialistas destacam a importância de identificar estas pessoas para evitar um número maior de contágios.