As pessoas com HIV estão mais expostas ao coronavírus?

23 de maio de 2020
Embora não existam muitas informações sobre esse tema, tudo indica que as pessoas com HIV não são especialmente vulneráveis ao contágio pelo coronavírus, nem estão no grupo de pacientes que tendem a apresentar complicações. No entanto, assim como todo mundo, elas também devem ter cuidado.

Ao mesmo tempo em que o mundo enfrenta a pandemia de coronavírus, também continua ativa a pandemia da síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS). Atualmente, existem cerca de 40 milhões de pessoas com HIV, e muitas delas se perguntam se correm algum risco específico de contrair COVID-19 ou se pertencem ao segmento da população que desenvolve complicações graves.

Até o momento, ainda não existem muitas informações sobre o assunto. No entanto, no início de março, foi realizada virtualmente a XXVII Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas (CROI 2020). Nessa ocasião, foi apresentado o único relatório de alto nível conhecido até o momento sobre a questão da coinfecção por HIV e SARS-CoV2.

As informações fornecidas pelos especialistas indicam que as pessoas com HIV não são um segmento específico de risco na pandemia de coronavírus. Isso significa que elas não são mais propensas a contrair a infecção, nem se considera que tenham mais chances de apresentar complicações em comparação com pessoas que não têm AIDS.

As pessoas com HIV não correm um risco maior

O que se pode afirmar é que, até o momento, não existem evidências suficientes de que pessoas com HIV apresentem um risco especial de contrair o coronavírus em comparação com outros grupos. No entanto, no âmbito desse tema sempre é necessário enfatizar o fato de que novas descobertas estão sendo feitas constantemente e, portanto, não há nada conclusivo até agora, exceto a experiência acumulada.

Diante da questão de pessoas com HIV e coronavírus, apenas um caso foi documentado na China. Isso não significa que não houve mais casos, mas esse é o único que foi acompanhado e deu origem a uma publicação científica.

O caso diz respeito a um homem chinês de 61 anos em Wuhan. Ele foi diagnosticado com HIV, mas também tinha diabetes tipo 2 e era fumante crônico: consumia entre 20 e 30 cigarros por dia. Após dar entrada no hospital, seu diagnóstico de HIV foi confirmado e foi detectado um estado de imunodepressão grave.

O homem recebeu um tratamento de lopinavir/ritonavir por 12 dias para tratar o COVID-19, além de outros medicamentos para combater as patologias adicionais. Surpreendentemente, o paciente se recuperou e recebeu alta. Ele permaneceu em quarentena por mais duas semanas e, ao final desse período, recebeu resultado negativo do exame para o coronavírus.

Exame de sangue de pessoas com HIV
Um homem em Wuhan foi diagnosticado com HIV e coronavírus, e é o único caso conhecido até agora.

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Cuidados que devem ser considerados

É necessário considerar que, com um único caso relatado, nada pode ser tomado como garantido. No entanto, como não foi relatada uma incidência especial de COVID-19 em pessoas com HIV, acredita-se que não exista um risco especial de contrair a infecção nem de apresentar complicações nesse caso.

Ainda assim, especialistas da área fizeram algumas recomendações especiais. A primeira é que as pessoas com HIV que estiverem em tratamento antirretroviral devem seguir cuidadosamente as indicações. Em particular, enfatiza-se que a medicação dessas pessoas é de uso exclusivo e não deve ser compartilhada com ninguém.

Além disso, é aconselhável seguir as mesmas orientações indicadas para todas as pessoas. Mais especificamente, respeitar as quarentenas que forem decretadas, manter distância social e lavar as mãos com frequência. Além disso, as pessoas idosas e que tiverem outras doenças crônicas devem ser especialmente cuidadosas.

Remédios para pessoas com HIV
Os tratamentos antirretrovirais não devem ser suspensos nem compartilhados.

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Mitos e verdades

Como não foi registrada uma incidência especial do coronavírus em pessoas que têm HIV, começaram a circular rumores e informações falsas que só causam mais confusão. Foi afirmado, por exemplo, que o tratamento antirretroviral impede a infecção por COVID-19. Entretanto, não existe nenhuma evidência que confirme essa afirmação.

Também não existem evidências científicas de que pessoas que tomam regularmente lopinavir/ritonavir, ou outros medicamentos da família dos inibidores de protease, tenham alguma resistência específica ao coronavírus. Iniciar ou alterar o tratamento com base nessas informações falsas, além de não funcionar para prevenir a infecção por coronavírus, também pode ser contraproducente no tratamento do HIV.

Também não é aconselhável tomar doses mais altas do que o recomendado. As pessoas com HIV devem apenas manter o tratamento que receberam até o momento e seguir passo a passo as mesmas recomendações que são dadas a todos.

O que as pessoas com HIV devem fazer durante a pandemia de coronavírus?

Em resumo, as recomendações para as pessoas com HIV durante a pandemia de coronavírus são: isolar-se, reforçar os cuidados de higiene e manter o tratamento antirretroviral que já estavam realizando. Diante de qualquer dúvida, o ideal é procurar o infectologista responsável pelo tratamento.

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