Novo estudo sugere que há duas cepas do coronavírus

20 de março de 2020
Um novo estudo da Universidade de Pequim diz que foram detectadas duas cepas de coronavírus, e que uma delas é mais agressiva. No entanto, cientistas europeus sugeriram cautela ao avaliar essas afirmações, e inclusive solicitaram que fosse divulgada uma retratação.

Um novo estudo realizado por pesquisadores de bioinformática da Universidade de Pequim e publicado na revista National Science Review, diz que foram detectadas duas cepas de coronavírus diferentes. Uma delas seria mais agressiva do que a outra. No entanto, cientistas europeus questionaram tais resultados, e a Organização Mundial de Saúde (OMS) pediu cautela em relação à publicação.

Segundo a pesquisa, o novo estudo foi feito a partir de 103 amostras genéticas. Os resultados indicaram que existem duas cepas, que foram chamadas de S e L. 30% das amostras correspondiam ao tipo S, enquanto 70% correspondiam ao tipo L.

Os pesquisadores chineses que elaboraram esse estudo classificaram o tipo L como o mais agressivo e o que se dissemina mais rapidamente. Por sua vez, o tipo S seria mais antigo e, provavelmente, está entre os seres humanos há muitos anos sem despertar nenhum alarme por seus sintomas serem leves.

O novo estudo na China

O novo estudo foi feito pela Universidade de Pequim e o Instituto Pasteur de Sanghai. Ele ressalta o fato de que o tipo S do coronavírus é a forma genética ancestral, ou seja, o vírus originário. Devido a mutações, seleção natural e recombinações, gerou o tipo L, que foi o mais comum nas etapas iniciais do surto na China.

Os cientistas explicaram que a frequência com a qual o tipo L aparece, ao menos na China, diminuiu. Segundo os dados levantados, das 103 amostras analisadas havia 27 que correspondiam a casos que aconteceram em Wuhan, China. 96% delas deram positivo para o tipo L, enquanto só 4% deram positivo para o tipo S.

Por sua vez, as 73 amostras restantes analisadas no estudo correspondem a casos que ocorreram em países diferentes da China. Nesses casos, foi encontrada uma prevalência diferente: enquanto 61,6% são do tipo L, 38,4% pertencem ao tipo S.

Isso quer dizer que o tipo L, o mais agressivo, se alastrou com menor disseminação fora da China. Para os pesquisadores, é possível que isso se deva às medidas bastante restritas de controle e prevenção que foram aplicadas nesse país. Também é possível que a diferença se deva ao fato de que foi exercida uma pressão seletiva mais fraca sobre o tipo S.

Vírus do coronavírus
Duas cepas de coronavírus COVID-19 foram identificadas por um estudo publicado recentemente.

Necessidade de novos estudos

Até agora só temos hipóteses a respeito da natureza e da progressão dos dois tipos de cepas de coronavírus. Por isso, o novo estudo conclui que são necessárias mais pesquisas sobre o assunto. Os responsáveis afirmam que só a combinação de dados do genoma com informações epidemiológicas e registros médicos do COVID-19 pode trazer respostas confiáveis.

O doutor José Antonio Pérez Molina, especialista em doenças infecciosas do Hospital Ramón e Cajal de Madrid, e membro da Sociedade Espanhola de Doenças Infecciosas e Microbiologia Clínica (SEIMC), indicou que a aparição de cepas diferentes é normal nesse tipo de micro-organismo.

Também esclareceu que o mais comum é que os vírus menos virulentos tenham maior prevalência, pois conseguem se estabelecer melhor na população. Além disso, o que costuma acontecer é que os vírus com maior capacidade de difusão, porém menor letalidade, se propaguem mais facilmente entre as pessoas.

Pesquisa em laboratório
O estudo com as cepas do coronavírus deve continuar para alcançar resultados mais concretos que classifiquem a letalidade do COVID-19.

Controvérsia científica sobre as cepas do coronavírus

Alguns cientistas questionaram a forma como os resultados do novo estudo foram interpretados. A doutora Isabel Sola, diretora do Laboratório de Coronavírus do Centro Nacional de Biotecnologia – que faz parte do CSIC – afirma que esse estudo não tem informação suficiente para concluir que um dos tipos é mais virulento do que o outro.

Por outro lado, o doutor Oscar A. MacLean, da Universidade de Glasgow, do Reino Unido, afirmou que até o momento já foram apresentadas 111 mutações nesse tipo de vírus, e que nenhuma delas mostrou ter efeitos significativos na pandemia. Disse também que o novo estudo da China tem muitas limitações metodológicas, começando pelo pequeno tamanho da amostra.

MacLean e sua equipe, inclusive, foram além e pediram que os cientistas chineses se retratassem, já que as suas conclusões só estariam causando mais confusão. A Organização Mundial de Saúde, por sua vez, advertiu que não devemos exagerar nas interpretações e afirmou que as duas cepas são, fundamentalmente, o mesmo coronavírus.