Mutações do coronavírus: formas diferentes em cada país

22 de março de 2020
Os cientistas estão analisando, em cada país, o genoma que o coronavírus possui em pacientes infectados e detectados. Graças a isso, podemos identificar as mutações do coronavírus e rastreá-las em cada área geográfica.

A pandemia de COVID-19 continua se espalhando, e indicações precoces de mutações do coronavírus ganharam evidências científicas ao longo do tempo. Desde o primeiro artigo que propôs a existência de duas linhagens do vírus, até as novas descobertas, a ideia foi estabelecida.

Ainda assim, era de se esperar. A mutação do coronavírus é explicada pela sua própria composição. Por ser um vírus de RNA, como veremos mais adiante, está sujeito a uma maior possibilidade de alterar o seu genoma devido a erros em sua replicação.

Essas mutações que estão sendo registradas na transmissão pandêmica do COVID-19 não representam a aparição de um novo vírus. A grande mutação do coronavírus foi a que ocorreu em Wuhan, na China, e que lhe permitiu passar do contágio entre animais para o contágio entre humanos.

Essas variantes são o que os infectologistas chamam de cepas ou linhagens. Ainda é o COVID-19, mas com pequenas modificações, embora, em essência, mantenha as suas características. Grande parte do RNA que ele contém é igual ao original, mas uma pequena porção vai mudando.

Por que o coronavírus pode sofrer mutações?

A mutação do coronavírus, como prevíamos, é possível devido à sua estrutura viralO COVID-19 é um vírus de RNA, o que significa que o seu genoma – sua informação genética – vem codificado em ácido ribonucleico.

O RNA é a criptografia ou codificação de como deve ser o vírus. Uma vez que entra em um organismo, ele usa as células do hospedeiro para se multiplicar. Funciona como um parasita, aproveitando a estrutura de uma pessoa para a sua replicação.

Um dos problemas que os vírus RNA têm é que o sistema para corrigir os erros durante a sua replicação é ruim. Ao contrário do DNA – ácido desoxirribonucleico – que possui um sistema de detecção e correção de erros, esse não é o caso do RNA.

Então, quando o coronavírus faz cópias de si mesmo dentro de uma célula, comete erros. Esses erros no RNA provocam a mutação e levam a diferentes cepas ou linhagens. Ainda assim, essas mutações não alteram muito o comportamento, e continuamos falando sobre o mesmo vírus.

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Mutações do coronavírus
O coronavírus detectado em cada país geralmente é diferente do original que saiu da China.

O que se suspeita sobre as duas cepas de coronavírus

Os cientistas que codificam o genoma do COVID-19 descobriram que existem duas principais linhagens de coronavírus. Eles as nomearam com as letras L e S.

A cepa L é a que começou em Wuhan em dezembro de 2019. De acordo com os dados disponíveis, é mais letal, embora tenha ficado confinada na China.

A outra variedade do vírus, a cepa S, é menos agressiva em termos de taxa de mortalidade, mas se espalha mais facilmente, e é a que conseguiu sair da China. Existe até uma teoria de que essa linhagem pode ter se espalhado por ser indetectável. Ao desenvolver os testes de diagnóstico baseados na cepa L, a outra teve liberdade de ação para provocar a pandemia.

A expansão e a disseminação da cepa S também estão ligadas à demora para a aplicação de medidas de restrição. Quase um mês se passou desde a identificação do novo coronavírus em dezembro de 2019 até o fechamento da circulação em Wuhan.

O que se suspeita sobre as duas cepas de coronavírus
Existem duas linhagens principais de COVID-19, chamadas S e L

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As mutações do coronavírus nos diferentes países

Na Espanha, a Fundação para a Promoção da Pesquisa Sanitária e Biomédica de Valência adquiriu conhecimento sobre o genoma do RNA do COVID-19 encontrado no país. Ele difere do genoma publicado pela China em janeiro deste ano.

Os escritórios de Saúde Pública do Brasil informaram que o coronavírus que entrou na América Latina, provocando o primeiro caso naquele país, tem 16 mutações em relação ao coronavírus que deixou Wuhan. Possivelmente, notícias e pesquisas continuarão aparecendo com resultados semelhantes.

No entanto, a mutação do coronavírus é um processo que não deve mudar, pelo menos por enquanto, a atitude em relação à pandemia. As medidas de segurança e higiene permanecem as mesmas do início, e a quarentena é imposta por vontade própria em alguns países e por obrigação legal em outros.

Por ser um vírus RNA, a sua mudança constante é esperada. Seus antecessores, como o coronavírus que causou o SARS e o causador do MERS, também sofreram repetidas mutações à medida que se disseminaram.

Os avanços científicos trazem clareza

Devemos agradecer aos avanços científicos de uma época em que podemos nos comunicar rapidamente. Grupos de pesquisa em todo o mundo podem compartilhar seu progresso em tempo real para colaborar.

A mutação do coronavírus faz parte do seu caminho de expansão, mas temos os elementos para seguir o seu rastro. A responsabilidade no uso dessas informações vai nos ajudar a contê-lo.