Morcegos: os causadores do coronavírus

22 de maio de 2020
Recentemente, foi praticamente confirmado que o morcego causou a propagação do coronavírus COVID-19. A seguir, discutiremos as implicações dessa descoberta.

Na manhã do dia 20 de abril, o Ministério da Saúde espanhol confirmou as suspeitas que vinham desde o início da pandemia do COVID-19: é quase certo que os morcegos foram o reservatório onde a doença se originou.

Este mamífero alado foi o principal suspeito desde o início. Os morcegos têm um sistema imunológico extremamente robusto, capaz de tolerar altas cargas virais, e são capazes de transportar várias doenças humanas letais. Entre estas estão o ebola, a já conhecida SARS e a raiva.

Estudos como este, liderados pela revista Nature Microbiology, apontam que a resistência dos morcegos pode ser devido à sua capacidade de reduzir as respostas inflamatórias.

Os vírus de RNA monocatenários – como o COVID-19 – tendem a provocar respostas exageradas no sistema imunológico, o que pode levar a complicações. Acredita-se que, ao limitar sua resposta inflamatória, os morcegos podem ser portadores de diversos vírus, mas quase não apresentam sintomas.

Por esse motivo, eles fazem parte da ordem dos mamíferos que carregam o maior número de vírus zoonóticos – aqueles transmitidos entre espécies – no mundo. Agora, o que essa descoberta implica e o que precisamos saber para entendê-la?

Hospedeiros e reservatórios

Um hospedeiro é aquele organismo que abriga outro dentro dele. Em geral, diferentes tipos de hospedeiros podem ser distinguidos:

  • Primário: aquele em que o parasita desenvolve a maior parte da sua existência, crescimento e reprodução. As adaptações do patógeno são desenvolvidas para afetar especialmente esse hospedeiro e maximizar a sua reprodução e expansão sem acabar rapidamente com a sua vida.
  • Secundário: abriga o parasita apenas em seus estágios iniciais de crescimento e está ligado à expansão e transmissão do patógeno ao seu hospedeiro primário. Eles agem como uma ponte.

Esses tipos de hospedeiros são facilmente exemplificados em complexos ciclos de vida parasitária: a larva vive em um animal, mas depois é expelida para o ambiente aquático e infecta outra espécie, onde o adulto se desenvolve.

Essas linhas são muito embaçadas quando falamos sobre os vírus, pois seus ciclos de vida são muito simples e dependem muito do sistema imunológico das espécies em questão. Portanto, é mais correto falar em reservatórios.

Um hospedeiro reservatório é um hospedeiro primário que abriga um agente infeccioso ou parasita que também pode ocasionalmente invadir o organismo humano ou o de uma espécie de interesse econômico. Assim, a confirmação em mãos é de que os morcegos foram o primeiro reservatório do coronavírus COVID-19.

Hospedeiros e reservatórios
O coronavírus é um vírus de RNA que sofreu mutação para contaminar diferentes espécies.

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O pangolim continua no centro das atenções

Temos o começo – os morcegos – e temos o fim – os humanos – do ciclo do coronavírus, mas o que há no meio?

Para que esta doença chegue até nós, é necessário ter um reservatório intermediário que atue como uma ponte entre os morcegos e os humanos, pois eles geralmente não entram em contato. O pangolim continua sendo o principal suspeito.

O Departamento de Saúde espanhol, liderado por Salvador Illa, continua listando este mamífero amigável como o foco secundário mais provável da infecção: uma sequência de outros coronavírus foi descoberta recentemente em 30 amostras de carne de pangolim.

Os coronavírus detectados nesses tecidos mostraram uma similaridade genética de 85 a 92% com o encontrado em humanos. Esses dados mostram uma relação muito provável entre o COVID-19 e os pangolins.

Na China, a carne de pangolim era consumida em mercados ilegais, podendo indiretamente colocar o primeiro veículo – o morcego que compartilha o ecossistema com esse mamífero – em contato com os seres humanos. Ainda é necessário esclarecer a relação direta do pangolim com a doença, mas todas as evidências apontam para ele como um segundo reservatório.

Mulher com pangolim na cabeça
O pangolim é o animal que explicaria a ponte entre os morcegos e humanos.

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Para que serve essa descoberta sobre os morcegos?

Saber quase com certeza que a origem do coronavírus foi o morcego é mais importante do que parece. Esses dados servirão para investigar melhor as espécies de mamíferos que estão em contato próximo com eles e para regular as políticas de proibição do consumo de carne de animais exóticos.

A melhor estratégia contra uma possível pandemia é evitar a exposição ao vírus em primeiro lugar. Ao endurecer as leis de tráfico de espécies, evitamos nos expor a possíveis reservatórios de doenças que ainda não conhecemos.

  • Coronavirus en España, noticia de última hora en directo, El mundo. Recogido a día 20 de abril en https://www.elmundo.es/ciencia-y-salud/salud/2020/04/20/5e9d478ffc6c83eb4e8b460c.html
  • Dampened NLRP3-mediated inflammation in bats and implications for a special viral reservoir host, Nature microbiology. Recogido a día 20 de abril en https://www.nature.com/articles/s41564-019-0371-3
  • Huesped (Biología), Wikipedia. Recogido a día 20 de abril en https://es.wikipedia.org/wiki/Hu%C3%A9sped_(biolog%C3%ADa)