O luto durante a quarentena

22 de maio de 2020
Com o passar dos dias, é cada vez mais possível que tenhamos que enfrentar a morte de pessoas próximas. Neste artigo, explicaremos como lidar melhor com o luto durante a quarentena.

O luto durante a quarentena é uma realidade presente em cada vez mais lares. Em todo o mundo, já ocorreram mais de 200.000 mortes devido ao coronavírus, e tudo indica que os números continuarão aumentando nos próximos meses, até termos tratamentos verdadeiramente eficazes ou uma vacina.

Isso levou a um aumento muito significativo do número de mortes em diversos países, principalmente na Europa e América do Norte. A essas perdas, devemos acrescentar as mortes decorrentes de outras causas ​​- por idade, patologia prévia ou outros motivos -, além daquelas que não puderam ser adequadamente tratadas devido à saturação das UTIs em alguns locais.

Por esse motivo, estamos enfrentando um momento com um alto número de mortes em que as pessoas não podem se despedir dos seus entes queridos da maneira como gostariam.

O que podemos esperar do luto durante a quarentena?

“Em nenhuma outra situação além do luto, a dor sentida é TOTAL: é uma dor biológica (o corpo dói), dor psicológica (a personalidade dói), social (a sociedade e a sua forma de ser doem), familiar (a dor dos outros dói em nós) e espiritual (dói a alma). Na perda de um ente querido, o passado, o presente, e principalmente o futuro são dolorosos. Toda a vida, como um todo, dói.”
-J. Montoya Carraquilla-

A morte de um ente querido é uma daquelas situações da vida em que mais precisamos do contato humano. É um momento de fragilidade em que sentimos como se nossa alma se rompesse, e compartilhá-lo com o resto dos nossos familiares e amigos alivia essa dor.

Na situação atual, essa ação não é possível. Portanto, o luto durante a quarentena pode ser afetado de algumas formas:

  • Nosso nível de estresse pode aumentar significativamente, pois estar isolado dificulta o gerenciamento dessa nova situação. O estresse pode alterar nossa frequência cardíaca, causar insônia, pesadelos, dores de cabeça ou piorar a digestão, entre outros sintomas.
  • Nossas emoções podem ficar ainda mais intensificadas devido ao estresse do próprio confinamento.
  • Podemos ter dificuldade para começar a processar o luto devido ao fato de não realizarmos um velório ou funeral da maneira tradicional.
  • A aceitação da realidade é complicada: se não vivemos com a pessoa falecida e não notamos a sua ausência física, em certos momentos pode nos parecer que a pessoa não morreu.
Mulher em funeral

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Quais emoções são mais comuns durante o luto?

Os pensamentos, sentimentos e emoções que surgem diante da morte de um ente querido são diversos: as crianças tendem a ficar mais irritáveis ​​e medrosas, enquanto os adolescentes e adultos tendem a ficar mais tristes e desanimados. No entanto, é preciso lembrar que cada pessoa lida com a dor da sua maneira, e há muitas formas de senti-la.

Independentemente da maneira como processamos o luto, as emoções serão o centro das atenções nos estágios iniciais. Algumas que podemos experimentar com mais frequência são:

Tristeza

A tristeza é a emoção mais associada ao luto. Pode se manifestar na forma de lágrimas, mas também com falta de energia, descuido com os cuidados pessoais, pensamentos pessimistas ou pouco interesse pelas coisas ao redor, entre outros.

Durante o luto, é importante encontrar um espaço e um tempo para sentir a tristeza; dessa forma, não iremos reprimi-la e conseguiremos lidar melhor com ela.

No entanto, também é importante fazermos atividades que nos afastem da dor durante o resto do dia. Caso contrário, é fácil que a emoção se converta em um estado depressivo e mais difícil de lidar.

Medo

O medo é facilmente exacerbado no momento do luto. Podemos ter medo de que alguém próximo a nós também morra, de não sermos capazes de gerenciar a situação, ficar com medo de adoecer se a pessoa tiver morrido de uma doença, ficar com medo de dirigir se a morte tiver acontecido devido a um acidente, e medo da própria morte e tantos outros ‘fantasmas’ que podem se manifestar nesse momento.

Devemos aprender a conviver com nossos medos para torná-los menores, pois, se os evitarmos, eles acabam ficando maiores. Estratégias como a reestruturação cognitiva e a dessensibilização sistemática podem nos ajudar a gerenciar os medos.

Raiva

Quando não aceitamos uma situação ou a achamos injusta, a raiva costuma aparecer. Isso pode ser muito incapacitante se não soubermos como gerenciá-la adequadamente. Portanto, aprender técnicas de respiração e relaxamento ou técnicas de autocontrole pode ser de grande ajuda.

Culpa

A culpa pode inundar nossos pensamentos de uma maneira muito profunda se acreditarmos que não fizemos tudo o que podíamos para evitar a situação. Para superar a culpa, não há nada como aprender a perdoar a si mesmo e a todas aquelas pessoas que podemos considerar que não agiram corretamente em uma determinada situação.

Estratégias para lidar com o luto durante a quarentena

“O luto deixa a alma quebrada e ferida, a alma que não deseja mais levantar de manhã, a alma que é incapaz de encontrar um motivo para viver, a alma que sofreu uma perda terrível. O luto tem o poder de curar.”
-Elisabeth Kübler-Ross-

A diferença fundamental dos outros lutos pelos quais já passamos até agora é que, na situação atual, a maioria das pessoas não consegue se despedir da pessoa que faleceu. Alguns pacientes internados podem compartilhar suas últimas palavras por telefone ou videoconferência, mas isso nem sempre é possível.

Além disso, durante o período de quarentena, os velórios estão proibidos e apenas três pessoas podem comparecer ao funeral. Portanto, é importante ter em mente algumas estratégias.

Casal se consolando após sofrer perda

Elaborar um ritual de despedida

Embora não possamos dizer adeus fisicamente ao falecido, podemos elaborar algum tipo de adeus: escrever uma carta, um desenho feito pelas crianças, juntar as fotos mais significativas ou escrever um poema para a pessoa falecida podem ser algumas ideias.

Evite o isolamento social enquanto estiver lidando com o luto durante a quarentena

Embora não seja possível abraçar, é importante compartilhar nossos sentimentos com os nossos amigos mais próximos. A tecnologia nos permite fazer chamadas, videochamadas e enviar mensagens, escritas e de voz.

Podemos fazer uso dessas ferramentas para pedir algo se estivermos precisando e compartilhar as nossas emoções com os outros. A dor será igualmente profunda, mas é mais fácil de suportar se for compartilhada.

Deixar os sentimentos fluírem

É evidente que as emoções negativas se intensificam durante o luto. Não devemos evitá-las, mas sim deixá-las fluir. Quanto mais as evitamos, mais prolongamos o sofrimento.

Gerenciar os pensamentos negativos

O que dizemos a nós mesmos durante o luto é a chave para o nosso bem-estar emocional. Portanto, é importante avaliar se os nossos pensamentos estão sendo excessivamente negativos.

Chorar

O choro libera os hormônios do estresse e tem um efeito sedativo. Na perda de um ente querido, a tristeza é inevitável. Se ela for acompanhada por lágrimas, nos ajudará a gerenciar melhor a emoção.

Escrever

A escrita é uma estratégia altamente terapêutica para uma infinidade de distúrbios psicológicos. Como não podemos interagir com os outros como gostaríamos durante o sofrimento na quarentena, a escrita nos ajudará a não nos sentirmos tão sozinhos, a nos conhecermos melhor, a nos conectarmos melhor com as nossas emoções e a expressar o que é difícil dizer em voz alta.

Exercício físico

Fazer alguma atividade física reduz nosso nível de estresse, raiva e ansiedade e é altamente recomendado quando estamos tristes. Portanto, é importante que sejamos minimamente ativos para nos sentirmos melhor, seja nos movendo pela casa se o confinamento rígido continuar ou saindo para a rua quando possível.

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Recomendações finais sobre o luto durante a quarentena

O luto é um processo no qual passamos por uma dor profunda. Nesse caminho, encontramos muitas dificuldades. Atualmente, uma dessas dificuldades é estar vivendo em confinamento, sem poder compartilhar a nossa dor da maneira como estamos acostumados.

Apesar da enorme dificuldade que isso implica, é importante lembrar que esta situação é circunstancial. Mais tarde, poderemos fazer uma cerimônia de despedida mais elaborada com o restante da família e amigos.

Enquanto esse momento não chegar, devemos continuar com as outras etapas que envolvem o processo de luto. Para isso, é essencial entrarmos em contato profundo com as nossas emoções e não tentar evitá-las.

Além disso, se compartilharmos as nossas emoções com outros membros da família, nos sentiremos mais próximos deles, fortaleceremos nossos laços e essa conexão nos ajudará a lidar melhor com a dor.

  • Fundación Mario Losantos (2014). Guía del duelo adulto para profesionales sociosanitarios. https://www.fundacionmlc.org/proyectos/psicologia-de-duelo/#publicaciones
  • Grupo de Trabajo “Psicología de duelo y pérdida” de la Delegación de Sevilla de COP Andalucía Occidental (2020). COVID-19: Guía para familiares en  duelo. http://www.infocop.es/view_article.asp?id=8693&cat=8
  • Neimeyer, R. (2012). Aprender de la pérdida. Barcelona: Ed. Planeta
  • Payás, A. (2014). El mensaje de las lágrimas. Una guía para superar la pérdida de un ser querido. Barcelona: Ed. Paidós.
  • Worden, W. (2015). El tratamiento del duelo. 4a edición. Barcelona: Ed. Paidós.