Como o coronavírus infecta as células pulmonares

23 de março de 2020
Um estudo publicado em 3 de março na revista Intensive Care Med lança uma nova luz sobre a forma como o coronavírus age nas células pulmonares. Também sugere a hipótese de que o SARS-CoV-2 possa entrar no corpo pelo intestino.

As informações coletadas até o momento indicam que o efeito mais visível do contágio pelo coronavírus é uma doença que afeta as células pulmonares. Embora a COVID-19 tenha surgido há apenas três meses, já estão disponíveis vários estudos científicos que esclareceram alguns aspectos sobre o vírus causador da doença.

Até o momento, tudo indica que o vírus é transmitido por meio das gotículas de saliva ou mucosa que são expelidas por uma pessoa infectada quando ela tosse, espirra ou fala. Se estas entrarem em contato com os olhos, o nariz ou a boca de outra pessoa, o vírus entra no organismo dela.

Uma vez dentro do organismo da pessoa recém-contaminada, as gotículas vão rapidamente para a parte de trás das narinas e da mucosa da garganta. Em seguida, ocorre um tipo de “acoplamento” entre o vírus e as células do receptor. Então, o SARS-CoV-2 inicia a jornada infecciosa que causa danos no organismo.

O vírus se agarra às células

O coronavírus tem algumas proteínas em forma de espinhos em todos os lugares. Elas se agarram às membranas das células que encontram, e o vírus as invade com seu material genético. O efeito disso é que o próprio organismo começa a ajudar o vírus a se multiplicar e impede que o sistema imunológico funcione como deveria.

Dessa maneira, surgem cópias do vírus, depois novas cópias e assim sucessivamente. Cada célula acaba explodindo, liberando partículas virais que infectam as células vizinhas. Pouco a pouco, o coronavírus avança da garganta para os brônquios.

Quando o SARS-CoV-2 ou o coronavírus atinge os pulmões, as mucosas pulmonares ficam inflamadas. Quando isso acontece, os alvéolos, que são como pequenos sacos de ar, podem ser danificados. A inflamação força os alvéolos a trabalharem mais para levar oxigênio ao sangue e eliminar o dióxido de carbono.

A inflamação, associada a danos no fluxo de oxigênio, pode levar os pulmões a se encherem de líquido, pus e células mortas. Isso pode causar uma infecção: a pneumonia. Por sua vez, a pneumonia eventualmente leva à síndrome do desconforto respiratório agudo. Nesse ponto, você só consegue respirar com a ajuda de uma máquina.

Mulher com tosse por causa do coronavírus
Um dos principais sintomas do coronavírus é a tosse, devido à sua afinidade com o sistema respiratório.

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O coronavírus e as células pulmonares

Um estudo publicado na revista Intensive Care Med conseguiu descrever com mais detalhes o processo pelo qual o coronavírus adere às células pulmonares. Para fazer a pesquisa, eles usaram um modelo de computador.

De acordo com as conclusões, o vírus consegue aderir às células pulmonares porque os espinhos que possui – proteínas pontiagudas – são muito semelhantes a um receptor – o ACE2, que também é uma proteína – presente nas células do pulmão humano. Essa semelhança faz com que eles “se encaixem perfeitamente”, por assim dizer.

Os cientistas comparam essa afinidade com uma chave e sua fechadura. Isso também explicaria a razão pela qual essa doença é tão contagiosa. Os pesquisadores afirmam que o vírus reconhece melhor esse receptor nas células pulmonares e, por isso, é facilmente transmitido. De uma maneira metafórica, é como se a fechadura atraísse a chave e vice-versa.

Como o coronavírus afeta as células pulmonares
As proteínas do coronavírus têm uma afinidade pelas células pulmonares, causando os maiores danos nesses órgãos.

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Os danos nos pulmões

Muitas pessoas se perguntam por que esse vírus ataca os pulmões em particular. A primeira resposta é que esses órgãos são especialmente vulneráveis ​​a qualquer tipo de vírus inalado. No entanto, a pesquisa da Intensive Care Med observa que alguns fatores biológicos também têm uma influência.

Os cientistas explicaram que 83% das células que servem como “fechadura” para aquela “chave”, que é o vírus, estão localizadas nos alvéolos pulmonares. Portanto, essas células pulmonares facilitam a invasão do vírus. Ou seja, é onde o SARS-CoV-2 melhor se encaixa.

No entanto, o estudo também observa que essas células pulmonares não são as únicas que se encaixam com o coronavírus. Existem outros órgãos que possuem “fechaduras” semelhantes, como o coração, os rins, o intestino e o endotélio. Os cientistas acreditam que o intestino, em particular, também é um importante local de entrada para o coronavírus.

Esses dados corroborariam a hipótese de que a pandemia começou com a ingestão de certos alimentos no mercado de Wuhan. Se isso for comprovado, terá muita importância, pois mostraria outra via de contágio e seria muito relevante para a contenção do problema.

Quais são as contribuições dessas descobertas?

Como estamos enfrentando um problema novo e uma pandemia sobre a qual ainda não existem muitas respostas, qualquer avanço científico é importante. Grupos de pesquisa do mundo todo estão compartilhando suas descobertas, praticamente em tempo real, a fim de fazer avanços mais rapidamente.

Conhecer o mecanismo da lesão pulmonar provocada pelo coronavírus é uma ferramenta para que os médicos aprendam a tratar essas complicações da melhor maneira.