Como o coronavírus infecta as células

23 de maio de 2020
A partir de imagens compartilhadas pelo Instituto de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, podemos ver em primeira mão como o coronavírus infecta as células. Explicamos tudo no artigo a seguir.

O National Institute of Allergy and Infectious Diseases dos Estados Unidos (NIAD) liberou recentemente imagens feitas com microscópios eletrônicos mostrando como o coronavírus infecta as células. As imagens estão disponíveis na conta flickr da instituição.

A microscopia eletrônica permite fotografar esse pequeno mundo invisível para o olho humano. Em seguida, através da um processo de edição, diferentes cores são adicionadas e modificadas para ressaltar o que se deseja ver.

Nesse caso, o NIAD usou um microscópio eletrônico de última geração pertencente ao Integrated Research Facility de Maryland. Lá, foram analisadas amostras de um paciente infectado com o SARS-CoV-2.

Essas imagens oferecem um panorama da metodologia infecciosa do coronavírus que está causando a pandemia mundial atual. Esta teve início no fim de 2019 em Wuhan, na China, e continua a se expandir pelo planeta infectando mais de 500.000 pessoas.

Como o coronavírus infecta as células?

Saber como o coronavírus infecta as células é essencial tanto para a prevenção quanto para desenvolver um tratamento para a doença. Como muitos dizem, estamos diante de um inimigo invisível sobre o qual sabemos muito pouco dado o fato de que é algo muito novo.

O coronavírus culpado pela pandemia atual é a variedade chamada de SARS-CoV-2. A suposição é de que tenha surgido a partir de uma mutação de uma forma de coronavírus que possui transmissão entre animais, mas que adquiriu, após a mutação, a capacidade de infectar e ser transmitida entre humanos.

O coronavírus em questão não mede mais do que 160 nanômetros de diâmetro. Essa é uma medida minúscula; é difícil para a mente humana ter uma ideia real do que estamos falando, mas é menor do que as células do corpo humano, e o vírus precisa adentrá-las para usar sua estrutura.

Este é um vírus composto por RNA; isso quer dizer que sua informação genética está guardada em ácido ribonucleico. Para poder se replicar e se multiplicar, o coronavírus usa o maquinário da própria célula do seu hospedeiro. Lá, ele fabrica RNA novo e proteínas que servem como uma capa para que ele possa continuar seu caminho.

O coronavírus, então, infecta novas células penetrando-as com sua capa cheia de espículas. O prefixo “corona” do seu nome faz referência a essas pontas que o rodeiam – quer dizer coroa em espanhol. Por isso, essa parte do vírus é uma proteína fundamental para que o SARS-CoV-2 siga se multiplicando.

Estrutura do coronavírus
As espículas do coronavírus contêm uma proteína que lhes permite ingressar nas células pulmonares humanas.

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Quais são as células mais afetadas pelo coronavírus?

As células humanas mais afetadas pelo coronavírus são as células pulmonares. É justamente no pulmão que surgem os principais sintomas – no sistema respiratório. A tosse é uma consequência da irritação das vias aéreas, e a pneumonia é a complicação que leva muitas pessoas infectadas pelo vírus à morte.

As espículas da capa do SARS-CoV-2 se juntam como uma chave para abrir uma fechadura ao se unirem aos receptores dos alvéolos pulmonares, e é assim que o coronavírus infecta as células. Uma vez dentro, ele se replica criando novas partículas.

O pulmão infectado, então, se enche de células do sistema imunológico do hospedeiro. Os glóbulos brancos chegam ao lugar da infecção para combater o agente estranho. Uma vez lá, liberam substâncias imunológicas e anticorpos que se misturam com o líquido inflamatório.

O líquido que se acumula no tecido pulmonar é o que pode ser visto nas radiografias como um vidro da cor esmeralda. A complicação que esse líquido pode trazer posteriormente é que, se não for absorvido, se transformará em um tecido fibroso, como uma grande cicatriz.

Nessa situação, as células pulmonares infectadas pelo coronavírus não funcionam da forma esperada. Como se trata de um tecido envolvido na respiração, os casos graves são aqueles que desenvolvem uma pneumonia e requerem o uso de um respirador artificial.

Os respiradores tentam compensar a função respiratória perdida, transportando oxigênio por meio de um sistema de pressão dentro dos pulmões. Quando não há esse suporte, há uma última opção que é a circulação extracorpórea (ECMO), mas essa ferramenta não está disponível em todos os locais.

Coronavírus visto de perto
As imagens microscópicas do coronavírus ajudam a estudar o seu mecanismo infeccioso.

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Quais são os benefícios dessas descobertas?

Entender como o coronavírus infecta as células é a chave para o desenvolvimento de medicamentos e vacinas. O que se pretende com os remédios, no caso dos vírus, é deter sua entrada nas células ou impedir a sua replicação.

Para isso, é fundamental conhecer o mecanismo de infecção. As imagens liberadas pelo NIAD são apenas uma parte de uma pesquisa maior que favorece a evolução do conhecimento.

É essa instituição que está à frente do ensaio clínico lançado nos Estados Unidos há pouco tempo para testar uma vacina contra o coronavírus. Essa vacina teve seu desenvolvimento baseado na informação de como o coronavírus infecta as células, o que se dá mais especificamente através da proteína de suas espículas.

Não são apenas imagens

Essas imagens mostram o coronavírus infectando células e são direcionadas para a população geral. Por trás dessas fotos, há estudos científicos que são atualizados diariamente devido à gravidade dessa pandemia. Devemos considerar tudo isso como um avanço importante, principalmente se nos permitir progredir em direção a um medicamento ou um tratamento para deter a pandemia.

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