Como o coronavírus afeta o cérebro?

22 de maio de 2020
Novas evidências sugerem que o coronavírus é capaz de danificar outros órgãos além dos pulmões. Alguns neurologistas explicaram como a COVID-19 afeta o cérebro, e nós vamos falar sobre isso neste artigo.

Saber como o coronavírus afeta o cérebro é uma das novas preocupações das equipes de saúde. Já existem evidências que indicam o comprometimento renal e cardíaco, razão pela qual começamos a falar de uma doença multissistêmica.

Isso estabelece uma diferença em relação a outras patologias virais semelhantes à gripe, nas quais só temos sintomas respiratórios e, no máximo, febre. A pesquisa em relação ao coronavírus aponta para os receptores celulares ACE2 como as portas de entrada para diferentes células do corpo.

A situação é que o receptor ACE2, como vamos explicar neste artigo, está presente em várias áreas do corpo do ser humano. É assim que a COVID-19 afeta o cérebro, usando sua afinidade por essa proteína.

Vale ressaltar que os sintomas indicativos continuam os mesmos: febre, tosse, cansaço e dificuldade respiratória. No entanto, cada vez mais surgem alertas sobre sintomas secundários que podem exigir uma atenção precoce, permitindo ganhar tempo. Já foram mencionados os problemas de visão e a perda de olfato. Talvez tenhamos que acrescentar a questão neurológica.

Receptor ACE2 explica como o coronavírus afeta o cérebro

Os coronavírus têm uma formação externa em forma de coroa, e é daí que vem o seu nome. Essa coroa é composta por espículas que as proteínas possuem para ter acesso às células humanas. O receptor humano é a proteína ACE2.

O receptor existe no corpo humano, como sabemos, para interagir em um sistema chamado renina-angiotensina. Esse sistema de hormônios e substâncias internas participa ativamente da regulação da pressão arterial. É por isso que os pulmões, o coração e também os rins são envolvidos.

No entanto, a COVID-19 afeta o cérebro porque também temos receptores ACE2 em alguns neurônios. Embora não haja uma confirmação definitiva de neurotropismo – afinidade pelos neurônios por parte do SARS-CoV-2 –, a suspeita é fundamentada.

A relevância do receptor ACE2 é fundamental para entender a mortalidade por coronavírus. Diferentes séries revelam que os hipertensos são um grupo com alta incidência de letalidade, o que seria explicado pela influência do sistema renina-angiotensina.

O cérebro humano
O coronavírus pode entrar no cérebro através do receptor ACE2 dos neurônios.

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Sintomas que revelam como o coronavírus afeta o cérebro

A perda do olfato, que surgiu como um sintoma precoce do coronavírus observado pelas associações médicas ao redor do mundo, é atribuída ao tropismo neurológico do SARS-CoV-2. O nome desse sintoma é anosmia, e os neurologistas concordam que isso acontece devido a problemas nos neurônios do sistema olfativo.

Também foram descritos casos de infectados com coronavírus que apresentaram miosite – inflamação muscular -, síndrome de Guillain-Barré e meningite. Todos podem estar relacionados ao sistema nervoso central e periférico.

Um risco significativo do comprometimento cerebral da COVID-19 está relacionado à vasculatura do encéfalo. Além do possível tropismo do SARS-CoV-2 em relação aos neurônios, é necessário considerar que as camadas internas das artérias cerebrais podem ser danificadas durante a infecção.

Essa lesão endotelial microscópica é conhecida como microangiopatia. Na pior das hipóteses, leva a uma hemorragia intracerebral e um acidente vascular cerebral.

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Duas vias de lesão cerebral do coronavírus

Pandemia de coronavírus
O coronavírus é uma doença sistêmica, de acordo com o que sabemos, e diferentes órgãos podem ser afetados, além dos pulmões.

Provavelmente há dois caminhos que a doença COVID-19 pode seguir para afetar o cérebro. Um desses caminhos é mais direto e se baseia na hipótese do tropismo neuronal do vírus. A outra via é indireta e é explicada pelos múltiplos órgãos que entram em choque quando o paciente está em estado grave nas unidades de terapia intensiva.

A via direta não está totalmente comprovada, como já antecipamos. O SARS-CoV-2 entraria nos neurônios através do receptor ACE2, da mesma forma que entra nos pulmões e nos rins.

Por outro lado, a via indireta é aquela que contempla a evolução do coronavírus dentro do organismo. Primeiro ocorre o quadro respiratório, depois a pneumonia consolidada, a falha de múltiplos órgãos, a diminuição do fluxo sanguíneo para o cérebro e, consequentemente, a morte de neurônios que não recebem oxigênio suficiente.

A COVID-19 afeta o cérebro?

Sabemos que a COVID-19 afeta o cérebro de maneira direta ou indireta. As pesquisas científicas continuam a informar e revelar novos aspectos dessa pandemia.

Esse conhecimento é vital para os profissionais de saúde que trabalham em unidades de terapia intensiva, pois eles podem adaptar seus tratamentos com base nas descobertas. Essa informação valiosa melhora a sobrevida do paciente, trazendo esperança em meio à incerteza do surto global de coronavírus.

  • Hoffmann, Markus, et al. “The novel coronavirus 2019 (2019-nCoV) uses the SARS-coronavirus receptor ACE2 and the cellular protease TMPRSS2 for entry into target cells.” BioRxiv (2020).
  • Bonow, Robert O., et al. “Association of coronavirus disease 2019 (covid-19) with myocardial injury and mortality.” JAMA cardiology (2020).
  • Sedaghat, Zahra, and Narges Karimi. “Guillain Barre syndrome associated with COVID-19 infection: a case report.” Journal of Clinical Neuroscience (2020).
  • Castellón, Roberto León, Juan Enrique Bender del Busto, and Luis C. Velázquez Pérez. “Afectación del sistema nervioso por la COVID-19.” Anales de la Academia de Ciencias de Cuba 10.2 (2020).